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Por que a Pesquisa em Ciência de Base é Importante?
Este texto corre sério risco de ser inócuo perante aqueles de mente impenetrável à reflexões. Porém àqueles que sempre buscam o auto questionamento e o refino de ideias pode servir como um norte, então acredito que valha a pena tratar sobre esse assunto.
Em 1860, em uma de suas apresentações na Royal Society, Michael Faraday foi interpelado pela Rainha da Inglaterra, que ao final de sua apresentação lhe perguntou: “Tudo isto é muito interessante, Senhor Faraday, mas para que serve?”. Consta que Faraday teria respondido: “Majestade, para que serve um recém-nascido?”. fonteA nossa sociedade é muito acostumada a dar valor às coisas por sua funcionalidade, portanto é uma tarefa fácil atribuir valor à tecnologia. Também é fácil ver a importância da ciência que desenvolve essa tecnologia, mas é complicado visualizar a relevância da ciência de base¹, a qual atua de modo implícito. Qual a importância da descoberta do bóson de Higgs? Qual a relevância em saber que existem planetas extrassolares ? Qual o sentido de estudarmos os neutrinos ? Por que enviar uma sonda para Marte?
Muito provavelmente
você conhece alguém que responderá as perguntas acima de forma
categórica (e estúpida): “Isso não possui nenhuma Importância”.
Essa mentalidade é fruto da nossa total alienação e ignorância referente à ciência. Pensando nisso, estou
escrevendo esse texto para tentar justificar a importância da
ciência de base e do investimento submetido a ela.
A ciência que
aparentemente não se aplica²:
Temas de pesquisas
científicas como astronomia, astrofísica, cosmologia, alguns ramos
da teoria quântica de campos e física de partículas, são vistos
por muitos como "pesquisa inútil" por não ter aplicação aparente.
Mas não ter aplicação aparente não significa ser inútil, significa
que as mudanças causadas por esses estudos são mais subjetivas e,
algumas vezes, mais profundas do que qualquer aplicação
tecnológica imediata.
Para entender isso
temos que olhar para o passado. Há mais ou menos mil anos atrás, víamos
uma concepção de universo completamente diferente da atual:
a Terra estava no centro do universo, a divisibilidade da matéria
chegava até o átomo, o tempo era algo fixo e difícil de se
entender, o universo era estático e “pequeno”. A partir do
momento que novos conhecimentos foram construídos, derrubamos nossas
antigas visões sobre o universo e sobre qual era nosso lugar nele, colocamos
nossas concepções, supostamente sólidas e lógicas, em cheque, desestabilizamos séculos de conhecimento humano sobre a natureza e nós mesmos.
Atualmente sabemos que
não somos o centro do universo, que a matéria é composta por partículas ainda menores que o átomo, que existem bilhões e bilhões de estrelas
no universo e que muitas delas são semelhantes ao nosso Sol, sabemos
também que o nosso universo pode ter um início, que o tempo é
relativo, que a antimatéria existe, que somos pequenas criaturas
vivendo em um pequeno planeta orbitando uma pequena estrela na
periferia de uma galáxia qualquer, que grande parte do material que
compõe nossos corpos foram sintetizados no interior de estrelas que
morreram há muito tempo. Ou seja, passamos por uma gigantesca revolução intelectual nos últimos mil anos, isso não foi útil? não trouxe aplicações tecnológicas a longo prazo?
Dois exemplos
contundentes de como a ciência de base afeta profundamente nossa vida é
a revolução copernicana, que tirou a Terra do centro do universo, e
a teoria da relatividade que tirou o caráter absoluto do tempo. De
forma geral ambas tiveram impactos sociais e culturais profundos, a
ponto de nossa filosofia ocidental ser impensável sem essas ideias.
Com a teoria quântica foi a mesma coisa, seu desenvolvimento trouxe
uma série de visões novas a cerca do universo e até a nossa filosofia teve, de certa forma, que se reestruturar em alguns segmentos.
Então a importância
da ciência de base se dá na estrutura de nosso conhecimento e de
nossa relação com o universo. Esse conhecimento novo não é uma
transformação local na ciência, mas sim um fenômeno global que se arrasta para diversas áreas do conhecimento.
Eugene Wigner, em seu artigo “The
Unreasonable Effectiveness of Mathematics in the Natural Sciences”,
começa a seguinte estória:
“Há uma história sobre dois amigos, que eram colegas na escola, falando sobre seus trabalhos. Um deles tornou-se um estatístico e estava trabalhando em crescimentos populacionais. Ele mostrou um de seus trabalhos a seu ex-colega de classe. Seu trabalho começou como sempre, com a distribuição de Gauss, e o estatístico explicou o significado dos símbolos para a população real, para a média da população, e assim por diante. Seu colega estava um pouco incrédulo e não tinha certeza se o estatístico estava de fato falando sério ou se estava brincando. Então ele pergunta: "Como você pode saber disso tudo? … E o que é esse símbolo aqui?" "Oh", disse o estatístico ", isto é pi". "O que é pi?", o estatístico responde: "pi é a proporção da circunferência do círculo com o seu diâmetro, tal qual vimos na escola", então o colega retruca: "Bem, agora você está indo muito longe com sua piada... certamente a população não tem nada a ver com a circunferência do círculo."
![]() |
| essa foi a primeira vez que o ser humano viu um por do sol no solo de outro planeta - Foto tirada pela sonda Spirit. |
Essa estória é
realmente interessante, pois de fato estamos usando pi, um número
que nasceu do estudo de formas geométricas, para descrever crescimentos
populacionais, que aparentemente nada tem a ver com isso. Da mesma
forma acontece na ciência de base, todo conhecimento transcende as
necessidades de seus estudos e se aplicam, mais cedo ou mais tarde,
nas mais diversas áreas. Há 120 anos começavam a se desenvolver a
relatividade e a mecânica quântica e, muito provavelmente, seu
estudo parecia inútil para diversas pessoas da época, já que muitos
acreditavam que esses dois ramos eram apenas dois detalhes a serem
consertados na física (supostamente) quase completa da época. Hoje existem aplicações de ambas (em conjunto ou
separadas) nas mais diversas áreas da física, da química e da tecnologia, desde
a fabricação de computadores, lentes, telefones, diagnósticos
médicos, até em outros segmentos de pesquisas como a
cosmologia, astrofísica, etc.
Podemos ainda
extrapolar essa estória e compará-la com pesquisas como a Curiosity que estuda a possível
existência de vida em Marte. A importância de se encontrar vida
fora da Terra, a meu ver, se assemelha bastante a tirar a Terra como
centro do universo, pois irá tirar desse planeta a visão privilegiada de
ser o único com vida. Mas muito além disso, também abre
inúmeras possibilidades de se compreender como a vida funciona e se
desenvolve em diversas situações, o que pode nos ajudar a entender
como a vida se formou aqui. Entender como o clima e a
geologia de Marte funcionam também pode revelar coisas
surpreendentes sobre o funcionamento e o futuro da Terra. Podemos ver Marte e outros planetas como grande laboratórios a serem explorados, assim como estrelas distantes, buracos negros, quasares e toda a grande quantidade de corpos que temos espaço sideral a fora.
A ciência que
aparentemente se aplica:
Dos temas citados
acima, talvez o mais fácil de se ver a aplicabilidade seja a
quântica, embora todos os nossos
conhecimentos possam atuar direta ou
indiretamente na produção de tecnologia. Há 100 anos a teoria da
relatividade era um conceito novo, aparentemente sem aplicação
imediata, mas hoje a usamos em diversos aparelhos, sendo o mais comum
o GPS, por exemplo. Os estudos da relatividade e da mecânica quântica nos
possibilitaram entender, produzir e aplicar vários fenômenos
relacionados a física de partículas e a matéria condensada, tais quais se fazem extremamente presentes hoje em diversos setores
da tecnologia, incluindo a medicina.
![]() |
| Imagem de um tumor realizada com um PETscan, tecnologia que foi possível graças a estudos com antimatéria |
Quando um novo
conhecimento é obtido na ciência de base é quase impossível
prever suas aplicabilidades futuras, como foi quando Dirac previu a
existência de antipartículas. Na época você certamente poderia
taxar essa pesquisa de inútil, mas hoje uma pessoa com câncer pode
ser diagnosticada precocemente por causa de ferramentas de diagnostico
como o PETscan que usam antimatéria. Mas não para por aí, o
próprio Dirac só conseguiu fazer essa previsão após unir com
sucesso a mecânica quântica e a relatividade restrita, tal fato foi
considerado um dos feitos mais importantes do século passado... e
não teve aplicação imediata.
O mesmo pode acontecer com pesquisas como ondas gravitacionais e o bóson de Higgs, sabemos se elas tem aplicação no
momento? Não, não sabemos, mas não podemos prever se no futuro haverão aplicações grandiosas para elas. Porém de imediato elas são de extrema importância para a física, a primeira é uma enorme constatação de uma previsão feita pela Relatividade Geral que abre uma enorme janela para o desenvolvimento de uma nova técnica de medição baseada em ondas gravitacionais, o irá ajudar muito nossa astronomia, astrofísica e cosmologia, já a segunda é a confirmação de que uma teoria que já usamos há quase 60 anos está realmente correta. Elas são, portanto, em primeira mão o atestado que mostra que estamos acertando em nossas previsões acerca do universo no qual vivemos.
Por sua vez, pesquisas
e experimentos como a sonda Curiosity e o LHC, desenvolvem uma série
de novas tecnologias para que possam ser realizados. Viagens
espaciais tripuladas e sondas por exemplo, criam e implementam tecnologias que são usadas em televisores,
câmeras fotográficas, roupas, calçados, aparelhos ortodônticos e
vários outros. Da mesma forma, pesquisas para a construção de grandes
aceleradores geram uma enorme quantidade de novas
tecnologias, como a web, que foi desenvolvida pelo Cern.
A ciência aplicada e a
ciência base são como duas pernas, se uma delas não funciona
direto nós não progredimos direito. Progressos teóricos sempre revelam progressos de aplicação que por sua vez geram
mais progressos teóricos, de tal forma que não podemos pensar na
ciência moderna sem uma dessas partes. É um erro crasso tentar
atribuir mais valor a uma ciência do que a outra, pois elas se
completam de modo a formar nosso conhecimento científico atual.
A tecnologia é fruto da aliança entre ciência e técnica, a qual produziu a razão instrumental, como no dizer da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. Esta aliança proporcionou o agir-racional-com-respeito-a-fins, conforme assinala Habermas, a serviço do poder político e econômico da sociedade baseada no modo de produção capitalista (séc. XVIII) que tem como mola propulsora o lucro, advindo da produção e da expropriação da natureza. Então se antes a razão tinha caráter contemplativo, com o advento da modernidade, ela passou a ser instrumental. É nesse contexto que deve ser pensada a tecnologia moderna; ela não pode ser analisada fora do modo de produção[...] (MIRANDA, 2002).
Acredito que, de alguma
forma essas linhas acima possam contribuir não para a aceitação,
mas sim para a vontade de se debater sobre o assunto. Até a próxima.
----
1 – Ciência de Base/Pura/Fundamental é aquela que tem por pretensão o estudo das propriedades fundamentais da natureza sem visar diretamente uma aplicação.
2 – Essa conotação
“ciência que aparentemente não se aplica” é uma divisão
arbitrária minha, ela não existe de fato.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Posted by
Thiago V. M. Guimarães
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Tecnologia
Entrevista sobre o Bóson de Higgs - ou um duelo entre jornalismo e informação?
Olá pessoal, não ia escrever um texto antes de sexta, mas quero falar acerca da entrevista que o Rogério Rosenfeld, do IFT, deu à emissora Bandeirantes no domingo. Os vídeos estão logo abaixo (linkei só a parte 1 de 4) e também indico que primeiro vocês leiam esse texto do Daniel, que foi o "muso" inspirador desse texto (kkkkkk).
Assisti a entrevista ontem, pelo canal do youtube do qual linkei o vídeo acima. Como eu estava de mal comigo mesmo e queria me autoflagelar, resolvi ler os comentários. Então o contexto total me deu vontade de escrever um texto abordando a postura do Rosenfeld, dos jornalistas e do pessoal que estava assistindo e criticando.
A entrevista já começa com um vídeo legalzinho, mas cheio de imprecisões. Obviamente a emissora não iria querer gastar mais dinheiro pagando alguém que entendesse do assunto para dar consultoria no vídeo, já que qualquer estagiário de jornalismo pode ler meia dúzia de textos e entender tudo do assunto. Afinal, o Higgs é totalmente trivial, uma partícula gorda que gruda em todas as outras partículas e dá massa para elas, cria o universo, passa café e faz bolo de chocolate.
Tirando o bonito e desastroso início, começa a entrevista. Parecia que eu estava assistindo um duelo de repentistas; os jornalistas perguntavam algo e esperavam respostas imediatas, “sim”, “não”, “o bóson de Higgs é isso”, o “bóson de Higgs é aquilo”... Porém, como o Daniel deixou bem claro no texto dele, na Ciência as coisas não são bem assim, principalmente se tratando de um assunto tão recente e complexo. Como vocês devem ter notado no meu texto anterior, o bóson de Higgs não é trivial, não se formula uma resposta exata “o bóson de Higgs é isso” e todo mundo compreende sem problema algum. Infelizmente na “física de ponta” muitas coisas que parecem triviais já deixarem de ser simples há muito tempo, como o caso da massa, que eu também escrevi a respeito.
Outro exemplo é a própria definição do que é matéria ou o que é uma partícula. Se um físico me perguntasse agora o que é uma partícula, eu conseguiria dar uma resposta concisa: responderia “na lata” que é uma representação irredutível do grupo de Poincaré. Um físico compreenderia sem problema algum, mas e para você que sentido isso faria? Muito provavelmente não faria nenhum sentido, afinal o que é uma representação irredutível, o que é um grupo de Poincaré? Quem ou o que diabos é Poincaré? Obviamente, para explicar a um “não especialista”, eu precisaria pensar em uma forma mais didática de abordar o assunto e, ainda sim, sem muita imprecisão.
Isso, por si só, já é uma tarefa muito difícil se tratando de assuntos consolidados, que todo mundo conhece dentro da física. Imagine agora responder perguntas referentes a algo que acabou de ser sistematizado, que pode ter relação com mais coisas do que sabemos, que pode ter propriedades levemente diferentes do esperado. Uma resposta concisa seria um erro tremendo.
Outro problema contundente eram as perguntas que vinham de jornalistas leigos. Via-se que o pobre Rosenfeld tinha que entender a pergunta e tentar consertar ela para que, aí sim, pudesse formular uma resposta simples e didática de algo complexo que está na fronteira do conhecimento humano.
Nesse meio tempo entre a compreensão, correção e resposta à pergunta, os jornalistas já estavam interrompendo o entrevistado com novas perguntas e indagações que algumas vezes sequer havia relação com a pergunta que ele estava tentando responder.
Aí vem aquela máxima: “Ah Thiago, você está sendo injusto, os jornalistas são pressionados para escrever, por quantidade de conteúdo em um tempo apertado, mimimi...”. Sim eu sei disso, e gostaria agradecer a essas empresas de jornalismo que estão preocupadas unicamente com lucro e não com qualidade de informação passada, pelo desserviço muitas vezes prestado à divulgação científica. Embora eu ache que a atitude da Bandeirantes, em abordar o tema, tenha sido algo muito legal, notava-se que a emissora não tinha nem ao menos UM repórter capacitado para tal entrevista, o que jogava toda a responsabilidade nas costas do Rosenfeld.
Uma coisa que eu gostei muito foi o desanimo dos entrevistadores logo no começo quando receberam a resposta de que o Higgs não tinha aplicação prática no momento. Esse ponto é algo muito delicado, pois nossa atual sociedade sente uma enorme dificuldade em achar utilidade para o conhecimento que não desenvolva imediatamente tecnologia. O aperfeiçoamento da nossa forma de ver e compreender o universo, a evolução da nossa compreensão de mundo são totalmente inúteis se não der para fazer um Iphone com bateria que dure mais tempo.
Mas enfim, esse é o mundo que vivemos e muitas vezes temos que tentar “vender nosso peixe” e forçar a existência de supostas tecnologias que podemos construir com o Higgs.
Agora vamos ao nono ciclo do inferno... digo, ao comentários:
Tanto no facebook quanto no youtube as opiniões foram deprimentes, basicamente me deparei com a justiça do inferno:
1 – A Malícia
Comentários puramente maldosos, com única intenção de atacar o entrevistado que não correspondeu ao esperado; “de que adianta ter 50 diplomas e ser um mané que não sabe explicar nada” e coisas do tipo.
O Rogério soube sim explicar muito bem algumas coisas, o problema foi que ele nem ao menos teve tempo para pensar em respostas melhores e mais amplas, pois era sempre atropelado por um jornalista com uma pergunta quase sempre sem muito sentido.
2 – A incontinência
“O Gleiser é melhor, deveriam ter chamado ele”, “Ele é bom, mas preferia o Gleiser”.
Tá, aí é uma questão de opinião. Mas é justamente esse ponto que difere Rosenfeld de Marcelo Gleiser. Rosenfeld se enrolou um pouco, gaguejou, demorou a responder, mas percebi que ele fez isso diversas vezes na tentativa de dar a melhor resposta possível para a pergunta, muitas vezes sem sucesso, devido a falta de rivotril nos jornalistas.
O Marcelo Gleiser por sua vez, não é tão cuidadoso com as suas palavras, aí o pessoal gosta mais, pois você não precisa pensar muito para entender uma resposta dele. Mas isso é um problema, muitas vezes o Gleiser é impreciso a ponto de estar errado, mesmo a explicação dele sendo didática e legal. Então preste atenção, a resposta que você quer muitas vezes pode estar errada, principalmente se tratando de Ciência.
3 – A Bestialidade
Sem dúvida o maior reflexo dos comentário na internet, ninguém nunca conseguirá escapar deles. Mas como sempre, nesse caso só podemos sentir pena dessas pessoas que precisam se comportar como animais, ou como “vermes de comentário”.
Para fechar vou resumir exatamente o que eu achei de tudo isso: gostei bastante da entrevista, acredito que foi bastante válido a emissora ter aberto espaço para um assunto importante para a Ciência, e adoraria que as demais emissoras fizessem o mesmo. A postura dos jornalistas foi algo muito prejudicial para o desempenho do entrevistado, que não pode se expressar corretamente, ou a altura da capacidade que possui. As emissoras deveriam se preocupar mais com isso. Apesar dos pesares, as respostas do Rogério foram muito boas, algumas vezes não muito didáticas, mas ao menos ele não foi impreciso em alguns pontos que outros divulgadores como Gleiser e Kaku nem se importariam.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Posted by
Thiago V. M. Guimarães
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Teoria Quântica de Campos
10 argumentos que você não deve usar em uma discussão sobre misticismo quântico
Estava aqui moscando, olhando para o Maple plotar umas
soluções numéricas para uns problemas em TQC que eu estou resolvendo, como isso
está demorando muito e basicamente o meu notebook fica tão lerdo que trava até
o navegador da internet (maldito Windows!), resolvi escrever esse texto como
apêndice para o texto anterior sobre cura quântica, pois pretendo pôr uma pedra
em cima disso.
Antes de tudo, esse texto tem a intenção de valer para
qualquer assunto pseudocientífico que envolva física, uma vez que ele será bem
genérico. Minha intenção é dar dicas de “como não discutir com um físico sobre
misticismo quântico”, então já aviso que esse texto é para ser assim mesmo,
sarcástico e nem um pouco informativo. Estou baseando as linhas a baixo nos
"argumentos" que já ouvi e li de pessoas que defendem o assunto, dessa forma se
você estiver em uma discussão relativa ao tema utilize esse texto para que você
não perca seu precioso tempo tentando discutir com os mesmo argumentos de
sempre. Mãos a obra:
10 + 1 Argumentos que você não deve usar ao discutir
assuntos sem provas científicas com físicos:
1 – Apelo à autoridade
Um dos argumentos
mais utilizados é uma falácia clássica do apelo à autoridade.
“Amit Goswami é (SIC) físico de Havard”
“Fulano de Tal, diretor do departamento de física de Cambridge, acredita no Capra”
“Laércio Fonseca tem mestrado na UNICAMP”
“O renomado físico do departamento de mecânica quântica de Skirym faz meditação transcendental”
“Walter White tomou homeopatia contra o câncer”,
“Einstein disse…”, “Heisenberg falou…”, "Homer Simpson provou…”....clap, clap.
Se você está discutindo com um físico/estudante/ser humano
normal e você pensa em usar um argumento parecido, semelhante ou que lembre alguma
dessas frases acima, nem perca seu tempo. O fato de qualquer pessoa acreditar,
ter falado ou “achar” algo não significa absolutamente NADA, não importando o
quão graduada seja essa pessoa, pois existe um abismo entre opinião pessoal e
uma evidência científica. A opinião não significa nada além de uma interpretação
baseada unicamente nas experiências de vida e preconceitos de uma pessoa, não
necessariamente passando por qualquer analise critica, o que é bem diferente de
uma evidência científica. Então não adianta colar frases de Einstein ou dizer que
fulano acredita nisso, se não existem evidências a respeito à opinião pessoal de
Einstein é tão relevante quanto à do seu padeiro.
Ah, pra falar a verdade seria legal se você não usasse esse
argumento nunca, não importa com quem ou o que você discuta, pois sem dúvida essa
é uma das falácias mais babacas que existem.
2 – A ciência provou.
Ahhh… esse é desesperador, quando eu leio isso tenho vontade
de jogar meu computador pela janela. Antes de dizer a “ciência provou”, que por
si só já não é epistemologicamente muito correto, você deve saber quais foram
os cientistas envolvidos nessa “prova”, onde o trabalho foi publicado, quantas
vezes ele foi citado, etc. Sair dizendo que a “ciência provou” algo é
simplesmente um argumento estúpido e vazio. Sem você mostrar como isso foi
"provado" é impossível discutir sobre o assunto, então, por favor, encontre as
publicações que "provem" o que você está dizendo, mas não vá pegar elas em livros
como “Alma Quântica”, “Xacra Quântico”, “Saúde Quântica da Madame Satan” e
muito menos em documentários. Documentários são simplesmente a mais baixa
categoria informativa sobre descobertas científicas¹. Então encontre
publicações científicas de verdade, se você não sabe como fazer isso é só
assinar os feeds desse blog que em breve vou escrever um texto sobre como
pesquisar por artigos.
3 – Apelo a Ignorância.
“Universo é muito complexo, nossa ciência é muito primitiva, portanto, tudo é possível e não sabemos nada”.
Novamente essa é uma falácia muito usada para defender
qualquer tipo de crença. Acho que sempre que posto algo relacionado à Mecânica
Quântica esse é o ponto que mais marcam em cima. Mas serei razoável, pois
realmente a mídia adora destacar que sabemos pouco do universo e que por isso
tudo é possível.
a)– O fato de não sabermos nada sobre um assunto não é prova
de que você está certo, é no máximo um motivo para não descartarmos o que você
está alegando.
b) – Antes de você afirmar que não sabemos nada, pare um
pouco e reflita. O que você sabe sobre a forma que a ciência agrega
conhecimento, como ela lida e aplica e ele? Olhe para esse monte de tecnologia
a sua volta, o que possibilitou isso tudo? Para construir essas tecnologias nos
precisamos entender “corretamente” como o universo funciona? Para mandar
corretamente nossas sondas para Marte, nossas teorias sobre gravitação têm que
estar corretas? Para fazer seu Iphone, Tablet, notebook, as leis da quântica
que descobrimos podem estar erradas?
Eu particularmente não gosto de atrelar a tecnologia como
justificativa para a ciência, mas acredito que no momento esse exemplo seja o
mais palpável. Para termos toda essa tecnologia precisamos que nossa
ciência esteja, com boa aproximação, correta. Nós compreendemos bem muitas leis
do nosso universo, muitas forças, muitas interações, muitas partículas. Você
pode ver isso facilmente, nós prevemos eclipses, máximos solares, prevemos a
existência de planetas e depois descobrimos de fato, conseguimos mandar sondas
para os mais diversos lugares e com grande precisão. Conseguimos fazer
tratamentos médicos baseados na física moderna e mais uma infinidade de coisas
que não seriam possíveis se nossas teorias estivessem erradas ou se nós não
soubéssemos nada sobre o universo. São as mesmas teorias que nos permitem levar
alta tecnologia a casa de vocês que também nos permitem, por exemplo, estudar
assuntos mais abstratos como o bóson de higgs, teoria do big bang, matéria
escura. Felizmente existem muitos e muitos mistérios no universo a serem
descoberto ainda, mas nós estamos trabalhando nisso e sabemos como prosseguir,
não somos um bando de macacos em um laboratório fazendo coisas aleatórias para
saber seus resultados.
Por favor, não use nossa ignorância para tentar
corroborar assuntos que nem sequer a ciência trata. Nossa ignorância existe e é
muito grande, porém existem muitas coisas que sabemos e são justamente essas
coisas que sabemos que nos permite, com prudência, descartar hipóteses absurdas.
4 – Humanização da Ciência.
Essa é até um pouco nova pra mim, mas me deparei com um
argumento desse tipo há pouco tempo aqui no blog.
“Considerar temas como “a mente colapsa a função de onda” são importantes porque humanizam a ciência e assim a gente não vai sair por aí jogando bombas nas cabeças uns dos outros.”
Ok, pra mim não faz sentido, mas se pensa em usar alguma
coisa nessa linha argumentativa mude de idéia. A ciência por si só já é uma
coisa humana e ela não vai deixar de ser menos humana por não aceitar hipóteses
sem evidência alguma. O mau uso da ciência em nada tem a ver com a forma que
procedemos em aceitar alguma hipótese, têm a ver com ética profissional tanto
de cientista, engenheiros, políticos, etc.
Eu enquadraria facilmente esse tipo de argumento em uma
falácia “non sequitur”, pois não faz sentido associar o mau uso da ciência com
uma suposta “não humanização” da mesma que nem ao menos existe. Afirmar uma desumanização
da ciência é não ter conhecimento algum sobre como ela funciona, dê uma lida
nesse breve texto: A Ciência Exata é Social.
5 – Nós não conhecemos nada da mecânica quântica e ela
permite tudo.
Esse argumento é muito semelhante ao terceiro, mas ele tem
um adicional. Geralmente as pessoas acham que a física quântica é naturalmente sem leis,
ou que apenas a estatística a rege. Os argumentos mais comuns nessa linha de
pensamento são:
“Ninguém compreende a mecânica quântica de verdade, pois as leis são muito bizarras”
“Feynman falou que se você acha que entendeu mecânica quântica é porque você não entendeu nada”
“A mecânica quântica é uma terra sem lei.”
“A mecânica quântica dá margem a tudo”
Esses argumentos não procedem, e o segundo ainda vem com
um adicional de apelo a autoridade. A mecânica quântica é uma teoria muito
bonita que não funciona pra tudo, tem leis bem definidas que nós conhecemos
muito bem, mas claro que existem alguns paradoxos ou efeitos que não
conseguimos ainda explicar com perfeição, como o emaranhamento
quântico, por exemplo. Em alguns casos nós até conhecemos bem as leis e sabemos
como trabalhar com elas, mas não entendemos direito o porquê delas existirem
exatamente. Ainda sim nada disso dá
margem a interpretações místicas ou embasa afirmações de que a Mecânica
Quântica é incompreendida, ou que tudo pode acontece.
A quântica menos ainda dá margem a “tudo”, na verdade ela
até restringe algumas coisas bem mais do que a física clássica. Quantizar
significa atribuir valores discretos a algo, e por valores discretos compreenda
como “não contínuos”. Assim se na mecânica clássica uma partícula pode ter
momento angular (a,b,c,d), quanticamente pode ser que a partícula só possa ter momento
(a,b), por exemplo. De forma mais palpável, imagine que a física clássica seja
nossas leis de trânsito², por lei você sabe que em determinados lugares você
deve atravessar sobre a faixa de pedestre apenas. Uma versão quântica das nossas leis
de trânsito poderia dizer que você só pode atravessar na faixa de pedestre e
pisando apenas sobre as faixas brancas. Dessa forma a nossa “lei quântica de
transito” restringiu ainda mais as possibilidades de atravessar a rua, agora
além de ser apenas na faixa de pedestre você só pode pisar na faixa branca. Da
mesma forma acontece na quântica, muitas vezes ela é mais limitante do que a
própria mecânica clássica.
6 – Opinião pessoal.
Muitas vezes quando estamos discutindo com alguém sempre
caímos em um impasse legal, de um lado nós defendendo um ponto de vista que é
um consenso na ciência e do outro a pessoa defendendo o que ela acha que é verdade. Aí surgem
os argumentos:
“Ah, mas essa é a minha opinião”
“Eu acho que é assim”
Serei categórico e mal educado: Foda-se sua opinião! Se você
não sabe nada de física, nada de ciência e quer discutir um assunto tão complexo
quanto esse, a sua opinião simplesmente não tem peso algum. Se você se matou de
estudar mecânica quântica e descobriu que o pensamento cura quanticamente as
pessoas, então pare de perder seu tempo com discussões, escreva um paper e o
submeta a uma revista científica que possua revisão por pares, que tenha um bom
fator de impacto, espere ser citado muitas vezes e que comprovem ou refutem
o que você está alegando.
7 – Tipo diferente de ciência
Esse é ótimo e vem em várias versões. Tem a versão:
“Colchão quântico é uma ciência nova desconhecida”
E também a famosa:
“Ah, crochê quântico é um tipo de ciência milenar chinesa/indiana que nasceu no Tibet” (que?)
É até complicado tentar começar a falar sobre isso, pois é
muito absurdo. Tipo, os caras pegam todo nosso jargão científico, falam de
experimentos que fizemos, misturam isso em uma salada com misticismo oriental e
vem falar que é outro tipo de ciência. Gostaria muito de saber que tipo de
ciência é essa que não produz nada além de livros de auto-ajuda e quinquilharias
quânticas que você pode comprar por um preço absurdo no Ebay.
Resumindo, um tipo misterioso de ciência oriental que não
segue os mesmo métodos da ciência ocidental se apossa dos nossos jargões,
aplicam em outro contexto que não tem relação nenhuma e a coisa ainda está
certa?! É tipo como recortar a peça de outro cabeça para fazer ela se encaixar
no seu?! Vou aproveitar para inventar um tipo diferente de misticismo que considera isso tudo um embuste!
8 – A Ciência não é dona da quântica nem da ciência.
Esse me faz chorar de rir:
“A Ciência não é dona da quântica”
“A Ciência não é dona da Ciência”
Que? Como assim? Alguém poderia explicar isso direito? A ciência constrói a teoria quântica e ela não é “autoridade” no assunto? Se um grupo de cientistas provarem algo e um monge lá do Tibet baseado em sua filosofia de vida disser que está errado, ou se o grande mestre Samael Aun Weor, em seu veículo astral, for até o Sol e os habitantes de lá disserem a ele que os cientistas estão errados então nós teremos que levar isso em consideração? é isso?
Esse argumento é altamente estúpido, pense bem antes de usar
ele.
9 – Argumento da paralisia mental filosófica.
Esse é péssimo por inúmeros motivos. O principal deles é que
uma conversa com uma pessoa que usa esse tipo de argumento simplesmente não
chega a lugar nenhum. Pois não importa o que você diga, essa pessoa nunca vai mudar de ideia e você
sempre será o cartesiano positivista da história. Então argumentos do tipo:
“Ah, mas a dialética….”, “Filosoficamente tudo pode existir”, “defina definir”, “Você está com um pensamento muito atomista"
Aqui a minha dica vai para o físico/estudante que está na
discussão; não perca seu tempo, vá estudar que você ganha mais.
10 – A evidência anedótica e o placebo
Um clássico que deve ter nascido com a humanidade. Em um
belo momento da discussão a pessoa resolve usar ela própria como prova:
“porque eu senti, então existe”
“porque uma vez um ET quântico massageou minhas costas”
“Porque a cura quântica me curou”
Esses argumentos são
clichês a máxima potência e não podem simplesmente ser levados em consideração, pois
a forma que interpretamos experiências pessoais está diretamente relacionada há
muitos fatores que ponderamos com extrema dificuldade. Duas pessoas que passam
pelas mesmas experiências de vida nunca possuem exatamente os mesmo pontos de
vistas e interpretações. Outro problema são os diversos efeitos que nosso
psicológico causa na nossa percepção de mundo, mais intrigante ainda são efeitos
que podem acometer até grupos inteiros de pessoas, como a histeria coletiva. Por si
só, esses efeitos psicológicos e sociopsicologico já são suficientes para
enfraquecer esse tipo de argumento, fazendo que ele caia no problema do ponto do vista que já
falamos. Nem vou tocar no ponto de que você pode ter algum tipo de
esquizofrenia ou outro transtorno social/neurológico que dificulta um
julgamento mais conciso e lúcido de suas experiências.
Se você foi curado ou não pela cura quântica, vodu
relativístico ou qualquer outra dessas coisas, simplesmente é impossível dizer,
pois não podemos distinguir se foi efeito placebo ou não. A forma mais segura de
verificar se realmente a cura quântica funciona é fazendo testes sérios com
vários grupos, comparando placebos controles, etc. Então não adianta você falar
o quão maravilhosa é a cura quântica, o ativismo quântico, ou qualquer coisa
assim baseado apenas em sua vida, portanto não use esse argumento.
11 – Comparação com teorias físicas ou.... "É só uma teoria"
De brinde, você ganha essa assustadora falácia. Ela funciona
mais ou menos assim:
“A teoria do Big Bang também era absurdo”
“A mecânica quântica parecia pseudociência”
“A teoria das cordas….”
"É só uma teoria"
Esse tipo de argumento geralmente me faz encerrar a conversa
na hora, pois demonstra o total desconhecimento da pessoa de como a ciência é
feita. Todas essas teorias vieram de bases solidas e de interpretações
científicas e matemáticas de outras teorias bem sucedidas que já tínhamos, não foi
algo tirado do chapéu ou misturado com misticismo oriental. Esse argumento é
bullshit total, evite isso!
Podemos resumir tudo que foi dito acima com “aprenda a
discutir e a julgar racionalmente as informações, evitando ao extremo usar suas
paixões”. Obviamente que esse assunto deve sim ser discutido, mas se estamos
falando de ciência então devemos fazer isso de forma séria e responsável,
sempre dando respaldando as nossas afirmações.
E para me despedir, gostaria de dizer que agora vai demorar um pouquinho para nosso próximo texto, mas prometo que ele será no máximo em novembro e sobre o tema "vácuo quântico".
Até breve.
1 - Documentários cumprem sim sua função de divulgação científica, o que é bem diferente da função de um periódico. Então note essa leve diferença no que falei.
2 - É, acho que acabei de criar a legislação quântica de trânsito, se alguma editora tiver interesse podemos publicar algum livro de auto-ajuda ensinando as pessoas a serem felizes quando estão dirigindo usando as leis quânticas de trânsito.
Até breve.
1 - Documentários cumprem sim sua função de divulgação científica, o que é bem diferente da função de um periódico. Então note essa leve diferença no que falei.
2 - É, acho que acabei de criar a legislação quântica de trânsito, se alguma editora tiver interesse podemos publicar algum livro de auto-ajuda ensinando as pessoas a serem felizes quando estão dirigindo usando as leis quânticas de trânsito.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Posted by
Thiago V. M. Guimarães
Tag :
ciência
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Cura Quântica
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divulgação Científica
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erros
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Pensamento Quântico.
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A Cura Quântica Possui Respaldo Científico ?
Como eu já disse nesse texto aqui, O Gato Zumbi de Schrödinger e o Colapso da Função de Onda, eu ODEIO escrever sobre mecânica quântica porque eu sempre tenho dor de cabeça com “místicos quânticos”. Eu descumpri minha promessa pessoal escrevendo sobre o gato de Schrödinger e agora estou descumprindo mais uma vez, porém de forma ainda mais grosseira. Hoje vou falar sobre Cura Quântica, esse tema é bem controverso e perigoso por dois motivos; primeiro que rola uma grana muito alta em cima disso, segundo que as pessoas defendem o assunto como se fosse religião e time de futebol, então já vou adiantando que não vou aceitar aquele “blablabla quântico”, isso aqui não é uma democracia, é meu blog e não darei espaço para esse tipo de coisa.
Vamos ao assunto. Há muito tempo que discuto sobre ciência e pseudociência, e esse assunto me desgastou tanto que eu resolvi colocar ele dentro de uma capsula de chumbo coberta com concreto e jogar no fundo da Fossa das Marianas. Porém essa semana a coisa ficou feia. Tudo começou com essa notícia da Folha: “Feira de medicina quântica tem desde 'essência de golfinhos' até água 'carinhosa'”, logo depois me deparo com isso nos meus feeds do facebook: “Medalhão Quântico - Cromado - Com Vídeo Teste De Qualidade”, aí eu não aguentei e resolvi escrever esse texto, não porque eu sou um físico dodoizinho, butthurt, NÃO! (tá, talvez eu seja um pouco), mas sim porque um enorme problema surge quando começam a usar um ramo sério da ciência para vender técnicas de curandeirismo e objetos “quânticos” que tratam desde mal olhado até ebola.
Como vocês que acompanham esse blog sabem, eu sou meio Jack Estripador, gosto de ir por partes para organizar o conteúdo. Então vamos começar olhando um pouco para o passado.
No século XIX, o eletromagnetismo estava em alta, havia muita discussão e dúvida acerca das propriedades eletromagnéticas da matéria, de onde elas vinham, porque exatamente existiam, além da concepção de éter muito presente na ciência desse período. Mais ou menos na mesma época dos trabalhos de Maxwell surgiu o espiritismo na Europa (ok, não me crucifique se você for espírita, só estou tratando de história), que por sua vez tinha a postura peculiar de querer se apoiar na ciência e com isso se apossou de alguns termos científicos, como o éter e o eletromagnetismo, que estava começando a ser entendido, mas era o grande mistério da época assim como foi com a quântica há pouco tempo atrás.
Com o caminhar da ciência, o eletromagnetismo foi desmistificado e ficou sem graça, a hipótese do éter foi derrubada no começo do século XX e na mesma época nos deparamos com um novo mistério: a Mecânica Quântica (MQ). Essa por sua vez era ainda melhor que o eletromagnetismo para se assimilar com espiritualidade, pois era mais difícil de entender e o adjetivo “Quântica” dava um ar de modernidade, complexidade e de "científico" ao assunto.
Por volta da década de 1970, o físico Frijot Capra, publicou o livro "O Tao da Física", que fez um paralelo entre a física moderna e conhecimentos orientais. Quando nossos queridos amigos místicos se depararam com isso logo abraçaram a ideia e passaram a implementá-la na forma de ver o mundo. Tivemos um surto de seitas quânticas, objetos quânticos, livros quânticos, chegando a absurdos como “direito quântico”, “sexo quântico”, “Marketing Quântico”, “Dieta Quântica” e “-insira-uma-palavra-aqui- Quântico”. A vantagem de se juntar o “Quântico” como adjetivo a qualquer coisa é que quase ninguém consegue contestar por falta de conhecimento, além de ser mais encantador aos olhos dos leigos.
Por volta da década de 1970, o físico Frijot Capra, publicou o livro "O Tao da Física", que fez um paralelo entre a física moderna e conhecimentos orientais. Quando nossos queridos amigos místicos se depararam com isso logo abraçaram a ideia e passaram a implementá-la na forma de ver o mundo. Tivemos um surto de seitas quânticas, objetos quânticos, livros quânticos, chegando a absurdos como “direito quântico”, “sexo quântico”, “Marketing Quântico”, “Dieta Quântica” e “-insira-uma-palavra-aqui- Quântico”. A vantagem de se juntar o “Quântico” como adjetivo a qualquer coisa é que quase ninguém consegue contestar por falta de conhecimento, além de ser mais encantador aos olhos dos leigos.
Tudo muito bem, tudo muito bom. Uma grande quantidade de físicos resolveu ganhar dinheiro e deixar de pesquisar para começar a vender livros de autoajuda. Surgiram filmes legais (SIC), como o “Quem Somos Nós” e “O Segredo”, mas agora o que temos que nos perguntar é: Sendo a quântica fruto da nossa ciência moderna, até onde essas “coisas” Quânticas são de fato ciência? Obviamente que a resposta é nada trivial, pois é quase impossível traçar uma linha clara entre ciência e pseudociência. Então vamos nos focar no que possui embasamento em pesquisas científicas séries.
Por pesquisa científica entenda que o que estamos procurando são publicações sérias em periódicos revisados por pares e de qualidade. Nós que trabalhamos na área temos acesso à uma plataforma de pesquisa de periódicos chamada de Web of Knowledge, lá estão as publicações do mundo inteiro, basicamente em todas as áreas da ciência. Resolvi fazer uma busca por palavras-chave associadas ao misticismo quântico, abaixo você pode ver os resultados:
Vou fazer questão de explicar direitinho o que eu fiz e comentar esses "artigos". Primeiramente eu fiz pesquisa pelas palavras-chave “Quantum Healing” e “Quantum Health”.
Primeira Busca – Quantum Health:
O Autor é: SCHMECK, HM. ( Sim, só um autor!)
Foi publicado no New York Times e não em um periódico.
Não teve nenhuma citação¹ e usou apenas UMA fonte.
Isso nem pode ser considerado um artigo, mas sim um texto!
Quantum wellness: A practical and spiritual guide to health and happiness
Novamente só tem um autor. Foi publicado na “LIBRARY JOURNAL”. Nenhuma citação, usou só uma fonte e, assim como o anterior, não tem um resumo e nem o texto completo em pdf para sabermos do que se trata. Isso também não pode ser considerado um artigo, muito menos ciência!
O mantra de sempre: Um autor, zero citações, blablablabla... Ah, o periódico que foi publicado tem fator de impacto² 1,6, para título de comparação a Nature possui fator de impacto maior que 30.
Na nossa primeira busca obtivemos apenas três textos que estão LONGE de ser artigos e mais longe ainda de serem pesquisas científicas. Os textos da imagem que não estão descritos aqui é por que não tem relação com cura quântica.
Segunda Busca – Quantum Healing;
Aqui tivemos resultados mais interessantes:
Theoretical Approaches on the Faith Element of Healing Under Traditional Medicine Psychosomatic Medicine, Placebo Effect, Quantum Healing
Novamente um autor, zero citações, a publicação foi feita em um jornal especializado em Cultura. Mas aqui tem resumo ao menos. Do que dá para entender parece que o autor enquadra a cura quântica em efeito placebo. Mas infelizmente não dá para concluir nada, pois o “artigo” não está disponível na integra.
Consciousness and nonlocality (Reprinted from Quantum Integral Medicine: Towards a New Science of Healing& Human Potential, 2005).
Finalmente um “artigo” com uma citação. Apenas um autor e a publicação foi feita na “ALTERNATIVE THERAPIES IN HEALTH AND MEDICINE”, que possui fator de impacto 1,77. Infelizmente não tem nem resumo nem “artigo” completo :(
Quantum transformation in trauma and treatment: Traversing the crisis of healing change
Aqui o nosso recordista de citações: 5, incríveis 5 citações em 7 anos de publicação. Novamente ele só tem um autor, foi publicado na JOURNAL OF CLINICAL PSYCHOLOGY que tem fator de impacto 1,66.
O resumo fala sobre uma suposta técnica, que NUNCA foi testada e por isso é chamada apenas de “ideia”. Como era de se esperar, tem maluquices quânticas como essa “particularly when occurring in quantum leaps, evokes, and illustrate the phenomenology of cascading transformations. They illustrate how the therapist's emotional engagement and attachment orientation”... (cadê o sentido disso?)
Randomized Expectancy-Enhanced Placebo-Controlled Trial of the Impact of Quantumbioenergetic Distant Healing and Paranormal Belief on Mood Distubance: A Pilot Study.
Até agora, essa é a única publicação com mais de um autor. Novamente tem zero citações e foi publicada no EXPLORE: The Journal of Science and Healing que por incrível que pareça pertence a Elsevier. Eu consegui o paper e logo abaixo tem um print dele (tente acessá-lo por aqui). Analisando o paper, vê-se que de fato se parece mais com uma pesquisa científica do que os outros, nota-se que ele possui método definido, análise, resultados... tem basicamente tudo!
Os autores são?
- Adan J. Rock – Trabalha com cognição e ciências sociais na University of New England, na Austrália
- Fiona E. Mermezel – Trabalha na escola de medicina na University of Melbourne, Austrália também
- Lance Storm – Trabalha na escola de Psicologia da University of Adelaide, também na Austrália
Ok, cadê os físicos? Tem quântica e não tem físico? Vou começar a escrever artigos na área de otorrinolaringologia...
O resumo está escrito aqui:
Previous research has demonstrated the effects of ostensible subtle energy on physical systems and subjective experience. However, one subtle energy technique that has been neglected, despite anecdotal support for its efficacy, is Quantum BioEnergetics (QBE). Furthermore, the influence of paranormal belief and experience (either real belief/experience or suggested belief/experience) on subtle energy effects remains unclear. (tradução)
Como vocês podem ver, eles trabalham com a existência da Energia BioQuântica (QBE), que por sua vez não possui comprovação científica. Como foi destacado no próprio "artigo":
É possível ver que a QBE, criada por Ms. Melissa Hocking que hoje é instrutora de QBE, foi publicado como livro de "métodos de cura alternativos" que é bastante divulgado no meio de publicações NewAge. Sendo assim a pesquisa acima parte do pressuposto de que essa "energia" existe de fato, mesmo ela nunca tendo aparecido em nenhum outro paper. Olhando para esse próximo print abaixo, vemos que eles alegam que o Quantum do nome apenas faz referência a um tipo de "emaranhamento" entre o paciente e o médico e que não possui nenhuma base empírica e/ou teórica para o uso da palavra, sendo assim não se encaixa exatamente em cura quântica:
É possível ver que a QBE, criada por Ms. Melissa Hocking que hoje é instrutora de QBE, foi publicado como livro de "métodos de cura alternativos" que é bastante divulgado no meio de publicações NewAge. Sendo assim a pesquisa acima parte do pressuposto de que essa "energia" existe de fato, mesmo ela nunca tendo aparecido em nenhum outro paper. Olhando para esse próximo print abaixo, vemos que eles alegam que o Quantum do nome apenas faz referência a um tipo de "emaranhamento" entre o paciente e o médico e que não possui nenhuma base empírica e/ou teórica para o uso da palavra, sendo assim não se encaixa exatamente em cura quântica:
Assim, podemos ver claramente que não existe publicação científica na área de cura quântica propriamente dita. Não estou dizendo que é mentira, estou dizendo que não é ciência! E esse ponto eu quero abordar com mais precisão, pois sempre que vejo pessoas falando sobre esse assunto é utilizado jargões científicos em larga escala, além de fenômenos como “salto quântico” (essa é a nova moda), propriedades dos elétrons, ondas, partículas, campos, incerteza, colapso da função de onda, etc. Mas quando são contestados de que a ciência não prova nada do que é afirmado e que estão fazendo uso indevido desses jargões, as respostas são sempre as mesma “você tem que abrir sua mente”, “nossa ciência ainda é atrasada”, “você é muito cartesiano”, “a ciência não é dona da quântica”, “ninguém aqui disse que é ciência”. E eu acho todo esse “argumento” uma enorme paralisia mental e um uso egoísta da ciência como objeto descartável.
A partir do momento que esses líderes de seitas se dizem baseados em ramos da ciência, usam os mesmos termos usados pelos cientistas e se dizem embasados por experimentos fica descarada a sua tentativa de vender a ideia como científica, como sólida. Nesses termos a ciência passa por um item de conveniência apenas; enquanto ela corrobora para o que se acredita é usada como propaganda, quando ela contradiz é rebaixada e criticada. A mística quântica é vendida como se fosse ciência e defendida como se fosse religião, o que para mim torna esse assunto irritante demais de se tratar.
Um ponto problemático e que ajuda a embasar esse "boom" de coisas quânticas é a visão estupidificante e absolutamente errada de que “A quântica é uma terra sem lei” (Estou olhando para você, Super Interessante!) ou que ninguém entende nada dela³. A Mecânica Quântica não é uma terra sem lei, não é a casa da mãe Joana, não é o bordel da luz vermelha. Embora ela seja probabilística, isso não a impede de ter leis claras que conseguimos compreender e trabalhar com elas em laboratório, além de conseguirmos aplicar em uma imensidão de tecnologias.
A quantização de propriedades como energia e momento angular por exemplo, são na realidade limitantes, pois com a quantização essas propriedades podem assumir apenas valores específicos e não valores contínuos como na mecânica clássica. Esse é apenas um panorama altamente superficial para que você possa notar que a mecânica quântica tem muitas leis, algumas delas são de fato difíceis de se observar ou compreender, mas elas existem e são rigorosamente cumpridas. Espero em próximo texto poder tratar isso de forma mais aprofundada.
Ilustrando melhor, quando trabalhamos com o átomo de hidrogênio, por exemplo, nós sabemos qual energia esperar para o elétron em sua eletrosfera, sabemos o spin do elétron e do próton que forma o núcleo, conhecemos o momento angular orbital total, etc. Nós podemos também calcular a probabilidade de encontrar o elétron em uma determinada região da eletrosfera, mas logo notaríamos que em alguns lugares essa probabilidade é zero. Ou seja, não existe possibilidade alguma de se encontrar o elétron em determinada regiões específicas da eletrosfera de um átomo de hidrogênio (veja o gráfico abaixo). Da mesma forma, para muitas
leis da mecânica quântica é possível calcular a probabilidade para
o que quisermos, como afirmam os textos que dizem que a MQ é uma
terra sem lei, porém em várias situações essa probabilidade
será zero, mostrando claramente que aquilo não é permitido!
![]() |
| Os picos representam as regiões de maior probabilidade de se encontrar o elétron enquanto que as regiões mais baixas (que encostam no eixo inferior) possuem probabilidade zero de encontrar o elétron. |
A quantização de propriedades como energia e momento angular por exemplo, são na realidade limitantes, pois com a quantização essas propriedades podem assumir apenas valores específicos e não valores contínuos como na mecânica clássica. Esse é apenas um panorama altamente superficial para que você possa notar que a mecânica quântica tem muitas leis, algumas delas são de fato difíceis de se observar ou compreender, mas elas existem e são rigorosamente cumpridas. Espero em próximo texto poder tratar isso de forma mais aprofundada.
Para encerrar, eu acho que essa mística quântica vende tanto assim porque ela pega justamente na necessidade infantil de o ser humano se sentir importante para o universo. Para muita gente é difícil viver com a ideia de que ela não comanda tudo a sua vontade ou que o "cosmo" não conspira a seu favor, então obviamente que muitos irão adorar ler sobre isso e defender apaixonadamente. A vocês que pensam assim só tenho uma coisa a dizer: Sinto muito, mas quanto mais estudamos, mais vemos que quem manda no jogo é o universo, e ele está totalmente alheio as nossas necessidades infantis de satisfazer nosso ego.
Queria deixar claro também, que assuntos como consciência quântica, cura quântica e vários outros que se encaixam na categoria de pseudociências devem sim ser estudados com o rigor da ciência, mas não da forma apaixonada que é feita por alguns "pesquisadores" atualmente. Apenas com estudos sérios conseguiremos de fato enxergar mais longe sem nos deixar enganar.
O texto ficou enorme, mas espero que tenha ficado claro que não existe base científica para a cura quântica e nem para seus produtos. Também espero que tenha ficado claro que não existe "terra sem lei" se tratando da mecânica quântica.
-----
1 - "Citações" se referem a quantas vezes aquele artigo foi utilizado por outros pesquisadores em papers da área. No caso, a relevância de um paper pode ser vista também por sua quantidade de citações.
2 - "Fator de Impacto" mede a relevância dos periódicos, quando eles possuem um F.I baixo significa que quase ninguém a dá mínima para aquele periódico.
3 - Nem perca seu tempo vindo me dizer que o Feynman disse que "quem acha que entendeu quântica significa que não entendeu nada"....
Reforçando: não vou aceitar comentários falaciosos defendendo misticismo quântico e nem venha com aquele papo de que isso humaniza a ciência, pois isso demonstrar um puta desconhecimento de como as ciências naturais e humanas funcionam!
2 - "Fator de Impacto" mede a relevância dos periódicos, quando eles possuem um F.I baixo significa que quase ninguém a dá mínima para aquele periódico.
3 - Nem perca seu tempo vindo me dizer que o Feynman disse que "quem acha que entendeu quântica significa que não entendeu nada"....
Reforçando: não vou aceitar comentários falaciosos defendendo misticismo quântico e nem venha com aquele papo de que isso humaniza a ciência, pois isso demonstrar um puta desconhecimento de como as ciências naturais e humanas funcionam!
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Posted by
Thiago V. M. Guimarães
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teoria
Ciência Fastfood.
Estou adiando esse texto há anos e entre os pesquisadores esse assunto está batido, mas acredito que leigos e estudantes do início da graduação não
tenham tanta familiaridade com ele. Então a idéia desse texto é trazer o
assunto para perto de vocês, leigos e graduandos.
Bom, tudo começa com “Você sabe o que um pesquisador faz?”
“Ele faz pesquisa! ÓóÓóÓóÓóÓóÓó”… sim, isso mesmo, ele passa o dia dele
estudando um assunto e tentando descobrir coisas novas por meio de matemática,
experimentos, outras pesquisas, etc (no caso da física óbvio), essa é uma resposta
razoável para nosso propósito. Mas e aí, como um cientista conta para todos os
outros sobre os resultados de sua pesquisa? É no boca-a-boca, é no jornal, é no
Discovery Channel, é por livros ? Não, nada disso, um pesquisador divulga seus
resultados por meio de artigos que são publicados em periódicos ("revistas"). E funciona mais ou menos assim:
O cara está lá pesquisando algo, obtém resultados e escreve seu artigo mais ou
menos dessa forma : (clique para aqui para ver um artigo do grupo de pesquisa do qual pertenço). Ao escrever
esse artigo ele é enviado para uma revista (existem muitas com diversas
especializações e diversos fatores de impacto). Então sua
pesquisa tem que passar por uma banca que irá examiná-lo para saber se ele
está correto e se é de interesse da revista publicá-lo, se for de interesse eles
publicam e você ganha... NADA (!), isso mesmo eles não te pagam um centavo, em
alguns casos é você quem tem que pagar. Mas tudo bem, parece algo interessante
você submeter seu trabalho a uma revista em que ele será analisado e aprovado por outros profissionais antes de ser divulgado para a comunidade científica. O problema começa com o fato
de que você tem que pagar para ter acesso a esses artigos, ou seja, você não
ganha NADA por ele ser publicado e as pessoas tem que pagar para essas revistas
para ter acesso ao seu trabalho.
Meio estranho não?!
Mas e aí, a gente gasta nosso suado dinheiro comprando
artigos para poder pesquisar? Sim é exatamente isso que fazemos, mas não fique
com dó de nós, vocês também nos ajudam nessa grande vaquinha! O Brasil, assim
como muitos outros países, assina uma plataforma online chamada Isi Web of
Knowledge que nos dá acesso á cerca de 400 periódico por ano, pela bagatela de
5 milhões ao ano. Sim, essas empresas que não pagam UM centavo para nós, vendem
a divulgação dos artigos por cerca de 20 mil reais ao ano para cada periódico. Não
é muito, é até que pouco na verdade, pois representa apenas 0,5% do nosso investimento em
ciência e tecnologia.
Resumindo é algo assim: Nós não recebemos NADA por publicar nossos trabalhos,
não recebemos nada por citar os artigos dessas revistas, não recebemos nada para ser revisores dessas revistas e ainda temos que pagar para ter acesso ao seu
material que também foi produzido gratuitamente por outros pesquisadores e foi analisado
gratuitamente. Lindo isso!
Mas e aí, porque se submeter a isso? Masoquismo?!
O problema atual da ciência é que quase todo nosso trabalho tem se resumindo a “Fornecimento de material” para esses periódicos. Vou
explicar com calma como isso funciona, espero que você tenha paciência para ler. :)
Você sabe como um cientista é reconhecido como o bonzão na sua área? Pasme…. é
pelo número de publicações nesses periódicos, sim, simplesmente isso “número”, não qualidade.
Publique 10 receitas de bolo em um periódico que você será, do ponto de vista
dos nossos órgãos de fomento, um pesquisador muito mais foda e receberá mais
recursos que outro pesquisador que publicou apenas um trabalho, mas que
revolucionou a sua área de pesquisa. Se Einstein ou qualquer outro emérito cientista
de sua época trabalhasse hoje no Brasil, eles seriam pesquisadores medíocres,
pois eles possuem baixo número de publicações, mas de impacto enorme. Se não me engano Einstein teve
apenas 4.
Com isso nem preciso falar que a Ciência mudou de nome para “fábrica de
artigos”. A única coisa que se quer é publicar, publicar e publicar…
Na minha primeira reunião quando entrei na pós graduação, a segunda coisa que a
coordenadora falou, logo após o “boa tarde”, foi “Vocês precisam publicar!”.
Para ilustrar ainda mais a situação, quando ainda estava na graduação eu ouvi uma conversa épica nos corredores do DFI. Eles tinham publicado um artigo e acabou rolando uma sobra desse artigo, foi nada mais que um problema experimental impar que eles tiveram, eis que um professor surge com a idéia genial: “Remete à revista, diz que é um problema geral e muito importante, dá uma enrolada, vamos tentar publicar isso também…”. Logo depois descobri que isso ocorria em praticamente todos os departamentos, não apenas na física.
A maioria esmagadora dos pesquisadores está nem aí para a qualidade de suas publicações, eles querem apenas um grande número publicações para engordar seu Currículo Lattes. Isso está causando um enorme contingente de publicações sem relevância alguma, pois a preocupação com qualidade acabou ficando em segundo plano.
Para ilustrar ainda mais a situação, quando ainda estava na graduação eu ouvi uma conversa épica nos corredores do DFI. Eles tinham publicado um artigo e acabou rolando uma sobra desse artigo, foi nada mais que um problema experimental impar que eles tiveram, eis que um professor surge com a idéia genial: “Remete à revista, diz que é um problema geral e muito importante, dá uma enrolada, vamos tentar publicar isso também…”. Logo depois descobri que isso ocorria em praticamente todos os departamentos, não apenas na física.
A maioria esmagadora dos pesquisadores está nem aí para a qualidade de suas publicações, eles querem apenas um grande número publicações para engordar seu Currículo Lattes. Isso está causando um enorme contingente de publicações sem relevância alguma, pois a preocupação com qualidade acabou ficando em segundo plano.
Mas a ciência fastfood não é um problema só
do Brasil, mas sim mundial. Tanto que por volta de 2011 começou a surgir na Alemanha um movimento chamado Slow Scence, que já
vinha sendo discutido há muito a tempo. A proposta é simples: desacelerar, a
ciência deve ser feita de forma lenta para que possamos pensar, rever os
estudos, analisar de forma consistente nossos próprios dados, conhecer melhor
os artigos nos quais nos apoiamos, a qualidade precisa sobrepujar a quantidade!
O grupo de neurocientistas que encabeçou o movimento criou um manifesto (que
você pode ler aqui) convocando os cientistas para o Slow Science. Mas
infelizmente ninguém está pensando em desacelerar até o momento, e o movimento está bem apático.
Bom, deixe eu encerrar por aqui que eu também preciso por
mais carvão nessa máquina de artigos!
Adendo aos anticiência:
Não tente usar esse texto ou mesmo o assunto pra desacreditar a ciência, pois
mesmo que tenhamos trabalhos ruins por aí, erros sendo divulgados, etc no conjunto
total a coisa é diferente, estamos constantemente corrigindo esses erros e construindo
conhecimento solido à muitas mãos.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Posted by
Thiago V. M. Guimarães













