O Gato Zumbi de Schrödinger e o Colapso da Função de Onda
Escrever
sobre ciência, em especial a física, é uma tarefa dura,
mas quando nós abordamos assuntos que gostamos é prazeroso escrever
textos, infelizmente esse não é o caso de hoje para mim. Porém é
uma tarefa necessária. Dia 12 desse mês foi aniversário do Físico
Erwin Schrödinger, um dos pais da mecânica quântica e o
idealizador de um dos experimentos mentais mais famosos de todos os
tempos, o maldito gato zumbi dentro de uma caixa. Com seu aniversário
várias páginas resolveram usar imagens do “gato de schrödinger”
para divulgar a data, inclusive o google fez um doodle super legal.
Nos comentários das páginas e no meu perfil pessoal vi perguntas,
várias delas, e notei que uma grande parte das pessoas acredita que
o experimento do gato realmente aconteceu e que o foco é o
gato dentro da caixa, então nosso texto de hoje será sobre isso; O
que de fato é o Experimento do Gato de Schrödinger e o que é que causa o colapso da função de onda.
Imagine
que você está afim de um(a) garoto(a), mas vocês mal se conhecem e
mesmo assim você quer chamar ele(a) para sair. Então antes de
convidá-lo para sair você resolve utilizar suas habilidades
matemáticas para tentar calcular qual a probabilidade dele(a) dizer
“sim” e “não”. Como você conhece pouco sobre essa outra
pessoa, você acha mais prudente dizer que a chance de receber um
“sim” é de 50% e a chance de receber um “'não” é
igualmente de 50%. Ok, antes de você perguntar existem duas
respostas para sua pergunta “sim” e “não”, então vamos
dizer que você se encontra num “estado” de resposta “sim-não”,
ou seja, um estado de dúvida, pois ambas respostas são possíveis.
Então você resolve perguntar para a pessoa se ela quer ou não sair
com você e (ao menos nesse texto) ela responde “Sim”, então a
sua probabilidade de receber um “sim” é agora de 100% e a do
“não” é 0%. Inicialmente você estava no estado “sim-não”,
agora seu estado colapsou para apenas “sim”. Simples, não?!
A idéia
do experimento do gato de Schrödinger é quase a mesma coisa. De forma simplória, imagine que você coloca um gato dentro de uma caixa, a qual está
devidamente lacrada (mas tem ar suficiente para o gato ficar lá
dentro), junto ao gato tem um dispositivo macabro que, de forma
aleatória, pode ou não quebrar um frasco de veneno dentro da caixa
e matar o coitado do gato. Digamos que existe novamente 50% de chance
de o dispositivo quebrar o frasco de veneno e matar o gato, e 50% de
chance do dispositivo não quebrar o frasco e o gato continuar vivo.
Enquanto não abrirmos¹ a caixa e vermos se o gato está vivo ou
morto, sabemos apenas que ele tem 50% de chance de estar vivo e 50%
de chance de estar morto, dizemos então que ele está no estado
“vivo-morto”. Assim que abrimos essa caixa devemos encontrar ele
ou vivo ou morto, ou seja, ou ele estará 100% vivo e 0% morto ou 0%
vivo e 100% morto. Exatamente da mesma forma que aconteceu no exemplo
de você convidando uma pessoa para sair. Mas note que nesse caso "abrir" a caixa representa uma medida do sistema, uma medida do gato vivo ou morto e não que é um observador (uma pessoa) forçando o gato a assumir um estado específico, o observador pode e deve ser substituído por algum aparelho como trataremos isso de forma mais correta no final desse texto.
Agora
que você tem uma ideia do assunto, vamos formalizar um pouco e
espero que você tenha paciência e vontade de ler.
Muito
antes da mecânica quântica surgir, Thomas Young já mostrava, por
meio do famoso experimento da dupla fenda, que um elétron poderia se
comportar como uma onda. Em 1926, a partir de trabalhos publicados
por Einstein e Planck, o físico francês Luis deBroglie introduz a
idéia da onda de matéria, em que se podia demonstrar
matematicamente as propriedades ondulatórias da matéria, um elétron
por exemplo.
Uma vez
que para partículas subatômicas esse caráter ondulatório é muito
visível e importante, foi introduzida uma ferramenta matemática
chamada de função de onda ψ.
Essa função tem importância fundamental na mecânica quântica,
uma vez que ela serve para descrever as principais características
de sistemas quânticos, como a energia, momento, posição e como
eles se comportam.
Para se
obter essa função ψ de onda, basta se extrair soluções da famosa
equação de Schrödinger, por exemplo. É como o "encontre o x" da matemática do ensino médio, mas um pouco mais complicado.
![]() |
| Equação de Schrödinger. |
Como essa
partícula é muito pequena, seu estado é dado pela interpretação
estatística de Bhorn, sobre a função de onda, em que |ψ|²
é a probabilidade de se encontrar a partícula em um ponto x,
no instante t.
A probabilidade de se encontrar a partícula naquela região é a área do gráfico que está em vermelho. No gráfico acima é bastante provável encontrar a partícula em A e quase impossível em B. Mas vamos supor que conseguimos medir com exatidão a partícula no ponto C, dessa forma todas as medidas consecutivas deveriam ser iguais, fazendo nossa função de onda se tornar um pico em C, a isso damos o nome de colapso da função de onda.
Assim, vê-se que há dois tipos de processos físicos completamente distintos: Os “comuns” no qual a função de onda evolui lentamente regida pela equação de Schrödinger e as “medidas” em que ψ colapsa súbita e descontinuamente.
Esses
processos são importantes para mostrar o caráter ondulatório e
probabilístico da mecânica quântica. Além de que o processo do
colapso da função de onda é amplamente citado por indivíduos que
fazem uma abordagem mística/esotérica da mecânica quântica, que é
justamente o motivo pelo qual eu odeio escrever sobre esse assunto.
Nós não
conseguimos saber antes da medida, onde uma partícula se encontra,
podemos apenas conhecer a probabilidade dela ocupar certas regiões
do espaço, quando executamos uma medida e encontramos a partícula
dizemos que houve um colapso da função de onda, assim a função de
onda que conhecíamos antes já não existe mais, e a partícula
volta a evoluir no tempo a partir de novas condições iniciais. Isso
nos mostra a sensibilidade do sistema ao ser medido.
Pelo
caráter matemático da equação de Schrödinger, ela pode nos
prover várias soluções para a função de onda, ψ, ψ1, ψ2 e etc. Nós
podemos também somar duas dessas equações de onda e obter uma nova
função de onda, ψ=Aψ1 + Bψ2, A e B são
constantes. Quando fazemos essa soma, nós estamos sobrepondo dois
estados quânticos e é isso que nos interessa!
Cada uma
dessas funções de onda pode nos fornecer um valor diferente para
energia, por exemplo. Assim ao somar essas duas funções de ondas,
não obteremos mais apenas um valor para energia, mas sim dois. Dessa
forma a partícula regida pela soma dessas funções de onda pode ter
sua energia entre esses dois valores e não mais apenas um valor.
Mas como
entender isso fisicamente? Imagine que pegamos vários sistemas
quânticos exatamente idênticos, sem a superposição de estados,
quando medimos a energia em um desses sistemas ele nos dará a
energia E1 quando medirmos novamente a energia em qualquer outro
desses sistemas nos obteremos novamente E1. Quando temos a
superposição de estados quânticos, essa certeza desaparece. Ao
realizar a medida da energia no primeiro sistema quântico, podemos
obter E1 ou E2 quando fizermos a medida no segundo sistema,
novamente podemos ter E1 ou E2 e o mesmo ocorrerá na medida
de qualquer um dos outros sistemas identicamente preparados. E se
fizemos a medida em um primeiro sistema e obtivermos E1 nada
garante que a medida dos outros sistemas sejam também E1, pois
ainda existe a probabilidade de medir E2. Assim mesmo com sistemas
idênticos, podemos obter energias diferentes.
Com a
superposição, as medidas de propriedades dos sistemas passam a não
ser mais bem definidas, mas sim estatísticas. Enquanto nenhuma
medida é feita nós dizemos que os estados estão sobrepostos (ou
superpostos) e a única coisa que podemos fazer é calcular a
probabilidade de medir o sistema e encontrar um estado ou outro.
Foi nesse
sentido que surgiu o experimento mental do Gato de Schrödinger. Como
antes da medição não conseguimos saber em qual estado quântico
nosso sistema está, dizemos que ele está em uma superposição de
estados. Schrödinger trouxe esse fenômeno para um exemplo mais
palpável: Colocando um gato dentro de uma caixa junto a uma
armadilha que possa matá-lo, dizemos que o gato pode possuir dois
estados, vivo ou morto. Quando fechamos a caixa, não temos como
saber se a armadilha disparou e matou o gato, ou se a armadilha não
disparou e o gato continua vivo. A menos que a caixa seja aberta, nós
não poderíamos afirmar que o gato está vivo, nem que o gato está
morto, mas sim que ele ocupa uma superposição de estados, em que
existe uma probabilidade dele estar vivo e outra probabilidade dele
estar morto.
Agora
vamos ver como Schrödinger elaborou originalmente o experimento e
tentar tirar está besteira de que a consciência humana é quem
colapsa a função de onda.
Schrödinger
escreveu:
“Qualquer um pode mesmo montar casos bem ridículos. Um gato é trancado dentro de uma câmara de aço, juntamente com o dispositivo seguinte (que devemos preservar da interferência direta do gato): num tubo contador Geiger há uma pequena porção de substância radioativa, tão pequena que talvez, no decurso de uma hora, um dos seus átomos decaia, mas também, com igual probabilidade, talvez nenhum se decaia; se isso acontecer, o tubo contador liberta uma descarga e através de um relé solta um martelo que estilhaça um pequeno frasco com ácido cianídrico. Se deixarmos todo este sistema isolado durante uma hora, então diremos que o gato ainda vive, se nenhum átomo decaiu durante esse tempo. A função-Ψ do sistema como um todo iria expressar isto contendo em si mesma o gato vivo e o gato morto simultaneamente ou dispostos em partes iguais.”
No primeiro exemplo que dei lá no começo do texto sobre o experimento do gato de Schrödinger eu disse que você tinha que abrir a caixa para que o gato assumisse ou um estado vivo ou um estado morto, fiz isso apenas a título de simplificação, mas já aviso que isso é perigoso, pois pode dar interpretações erradas, para tanto fique muito atento as linhas abaixo!
Falamos em grande parte do texto sobre medições, mas o que afinal são essa medições? É consciência humana de quem realiza o experimento? NÃO! Na descrição correta do experimento mental que está aí acima, vemos que há uma fonte radiativa que pode emitir uma partícula ou não, que será registrada pelo contador Geiger. A medição é representada pelo disparo do contador Geiger ao registrar o evento da emissão da partícula e não a intervenção de um observador humano. O que chamamos de medição nesse caso é a interação entre o sistema microscópico e o macroscópico de forma a deixar um registro permanente, ou seja, é no momento que a mecânica quântica interage com a mecânica clássica. Pois o sistema macroscópico não pode ocupar uma superposição de estados da mesma forma que o sistema quântico. Alguns oportunistas gostam de pegar a palavra “medição” e dar um caráter totalmente humano e consciente a ela chamando-a de “observador”, quando na verdade não é! Heisenberg usava a palavra evento ao invés de medição, mas infelizmente a moda não pegou.
Para finalizar vejam esse vídeo e comparem com nossa explicação:
É isso pessoal, espero que tenha ficado claro para todo mundo que não tem nenhum gato de verdade dentro de nenhuma caixa, é tudo um experimento mental, no qual nosso interesse é apenas criar uma forma palpável de exemplificar a superposição de estados.
Algumas referências:
- Tales of Schrödinger's Cat
- Introdução a Mecânica Quântica - Griffiths
- Física em 12 Lições Fáceis e Não Tão Fáceis - Feynman
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Posted by
Thiago V. M. Guimarães
Campos e Partículas - A Nossa Visão Moderna do Universo
No texto passado
falamos sobre simetrias nas leis da física. Nesse texto de hoje
vamos tratar de uma leve introdução da relação entre partículas
e campos do ponto de vista da Teoria Quântica de Campos (TQC). No
próximo texto iremos relacionar os dois assuntos tratando da quebra
espontânea de simetria e, nesse contexto, falaremos sobre dois
mecanismo muito importantes, o de Goldstone e o de Higgs. Vou deixar
os planos a curto prazo em formato de lista para que você possa
acompanhar melhor:
1 – Simetrias
2 – Partículas e
Campos
3 – Quebra Espontânea
de Simetria.
4 – O que são
Partículas Elementares?
5 – O que é
Supersimetria?
Vamos ao que interessa.
No final do século
XIX, o Lorde Kelvin¹ disse que o céu estava limpo, exceto por duas
pequenas nuvens negras, se referindo a como estava a física da
época. O problema é que essas duas pequenas nuvens negras eram nada
mais do que a mecânica quântica e a teoria da relatividade. Em
pouco tempo, essas duas nuvens negras cresceram e deram origem a uma
enorme tempestade.
É justamente da junção
de parte dessas nuvens que vamos falar aqui, mas não vou me focar em
descrições de títulos, e sim dar explicações e depois atribuir
títulos a elas.
Uma coisa que é comum
de se ler por aí é sobre a incompatibilidade entre a mecânica
quântica e a teoria relatividade. Mas isso não é totalmente
verdade, existem vários pontos em que a mecânica quântica e a
relatividade se encaixam muito bem e é disso que se trata a TQC².
Desde a formulação de teorias modernas da física, os campos se
fizeram presente, como na teoria do eletromagnetismo de Maxwell, por
exemplo. Então veio Einstein, Minkowski, Lorentz, Poincaré e deram
a física clássica uma nova abordagem, a abordagem relativística,
que deu formas diferentes a nossa visão dos campos. A essa nova
visão sobre os campos nós chamamos hoje de Teoria Clássica de
Campos. Com a inserção da mecânica quântica nesse contexto, ou
seja, com a quantização desses campos, obtivemos uma teoria bem
abrangente e que mete o bedelho desde a cosmologia até a física da
matéria condensada, que é a Teoria Quântica de Campos.
Mas qual a graça da TQC?
Essa teoria foi
postulada pela primeira vez no final de 1920 e desenvolvida ao longo
das décadas seguintes. E uma das principais coisas que a TQC fez,
foi mudar nossa visão de mundo. Pois essa teoria nos fez ver um
universo todo permeado por campos, que dão origem as partículas que
formam nosso universo, colocando os campos em uma posição
fundamental para compreendermos a natureza. Mas para ficar mais fácil
nossa compreensão, para começar, vamos pensar apenas em elétrons.
Em todo o universo, há
um campo chamado de “campo de elétrons”, que é um campo
fermiônico que citamos no texto sobre Matéria e Energia. Um elétron
propriamente dito não é um campo, mas sim uma vibração localizada
em um campo. Na verdade, cada elétron no universo é uma vibração
localizada em um único campo.
Os elétrons não são
as únicas partículas que consistem em vibrações localizadas de um
campo, na verdade todas as partículas são. Por exemplo, há um
campo de fótons, um campo de quark up, um campo de glúons, um campo
de múon, ou seja, há um campo para cada partícula conhecida. E,
para todos eles, uma partícula é apenas uma vibração localizada
do campo.
Esse é o caso também
do bóson de Higgs. O campo de Higgs interage com as partículas
fornecendo a sua massa, mas é difícil observar este campo
diretamente. Por esse motivo temos que fornecer energia para esse
campo, através de colisões de partículas, para lhe causar
vibrações que são detectadas como partículas, no caso, o bóson
de Higgs. Então, observar uma partícula em acelerador, por exemplo,
é nada mais do criar e observar vibrações em determinados campos.
Essa idéia dá uma
visão completamente diferente de como o mundo subatômico funciona.
Pois existe uma grande variedade de diferentes campos permeando todos
os lugares e o que nós pensamos que é uma partícula, na realidade
é simplesmente uma vibração do campo ao qual ela é associada.
Isto tem consequências
importantes sobre a forma como pensamos sobre como as partículas
interagem. Por exemplo, considere um processo simples, onde dois
elétrons são disparados um contra o outro e são espalhados. Na
visão semi-clássica de dispersão, um elétron emite um fóton e
depois recua. O fóton viaja para o outro elétron, que o “recebe”
e também recua. Isto é como ter duas pessoas em cima de dois skates
e um deles joga uma bola para o outro: o skate da pessoa que
arremessa a bola se move para trás em resposta à massa da bola,
assim como o skate da pessoa que apanha a bola.
Na TQC,
uma vibração no campo do elétron provoca uma vibração no campo
dos fótons. A vibração no campo do fóton transporta energia e
momento para outra vibração no campo do elétron e é absorvida.
No famoso processo em
que um fóton se converte em um elétron e um anti-elétron, as
vibrações do campo dos fótons são transferidas para o campo do
elétron e dois conjuntos de vibrações são configurados – um dos
quais está de acordo com a vibração do elétron e o outro de
acordo com a vibração do anti-elétron³.
Essa abordagem de campos e
vibrações explica como o universo funciona em um nível profundo e
fundamental. Estes campos abrangem todo o espaço. Alguns campos
podem interagir com outros campos, enquanto que outros podem parecer
inertes. O campo fóton pode interagir com os campos de partículas
carregadas, mas não pode interagir com os campos dos glúons ou dos
neutrinos. Por outro lado, um fóton pode interagir indiretamente com
o campo do glúon, em primeiro lugar, fazendo vibrações nos quarks
que, em seguida, fazem os glúons vibrar.
Campos quânticos são
realmente uma forma bem diferente de ver o universo. Tudo, e eu quero
dizer TUDO mesmo, é apenas uma consequência da vibração de muitos
campos infinitamente grandes. O universo inteiro é feito por esses
campos e essa coisa dá um grande nó na nossa cabeça.
No próximo texto, nós
vamos tratar de como essas partículas “aparecem” na quebra
espontânea de simetria nesse campos. Iremos falar um pouco sobre o
mecanismo de Goldstone, em que partículas perdem sua massa e o
mecanismo de Higgs, no qual partículas ganham massa. Caso você
queira acompanhar bem o próximo texto aconselho que você dê uma
estudada em “energia potencial” pode ser por material de ensino
médio, ou por esse texto.
1 - Em The London, Edinburgh and Dublin Philosophical Magazine and Journal of Science, Series 6, volume 2, page 1 (1901) "Nineteenth-Century Clouds over the Dynamical Theory of Heat and Light."
2 - Note que o ponto problemático da junção entre Mecânica Quântica e Relatividade se dá no campo gravitacional, quando tentamos quantizar esse campos surgem infinitos na nossa teoria que estragam a nossa brincadeira.
Veja mais:
- Lectures on Physics - Feynman (o física em 12 lições também serve)
- Introduction to Quantum Field Theory. John Cardy
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
Posted by
Thiago V. M. Guimarães
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A Bela Simetria do Universo
Dando
continuidade ao nossos textos sobre física, em especial física de
partículas que campos. Hoje vamos tratar de um assunto muito
importante para os físicos da minha área; Simetria. Sem esse tema não conseguimos tratar quase nada da física moderna que vocês tanto gostam de ler!
Simetria
é algo totalmente presente em seu dia a dia, pois ela está contida
em nosso corpo, em praticamente todos os outros animais, em grande
parte dos objetos e formas geométricas. Por exemplo, na imagem a
baixo vemos 2 formas simétricas e uma antissimétrica. Na primeira
forma, se rotacionamos a tulipa em 1/8 de circulo ela ficará
exatamente da mesma forma. Já a ervilha apresenta uma simetria
diferente, se rotacionarmos ela, ela não parecerá simétrica, porém
podemos notar que um dos lados é exatamente igual ao outro. Na
terceira imagem, flor da cana-da-índia, não existe simetria de
nenhuma forma. Podemos ainda pegar uma esfera, que é uma forma
geométrica totalmente simétrica, não importa se você a gire, ou a
translade, ou a espelhe, ela sempre irá parecer igual.
Nosso
cérebro também tende a buscar simetria nas coisas e a achar beleza¹
nisso. Assim, nada mais natural que buscar simetrias nas leis do
nosso universo. Todas essas definições de simetria, de harmonia, de
estética, também existe na física. Mas o que elas são exatamente?
Bem, esse
assunto agora pode ser abordado de três formas, a primeira é bem
simples e intuitiva, a segunda vai exigir de você conhecimento
razoável de física, vetores e geometria (abordei isso aqui) e a
terceira forma é a para físicos experientes, obviamente aqui
abordaremos a primeira forma.
Para nós,
equações simétricas são aquelas que depois de sofrerem uma certa
transformação (rotação, translação) permanecem iguais, ou seja,
sem alterar seu significado. Um exemplo simples é uma soma de
números positivos, 2 + 3 = 5, podemos trocar a ordem a ordem e obter
a mesma reposta, 3 + 2 = 5, assim existe uma certa simetria na
adição. Porém o mesmo não vale para a subtração, pois 2 – 3 =
-1 e 3 – 2 = 1.
Apesar do
exemplo simples, simetrias muitas vezes são complexas e têm um
impacto profundo na física. E para entendermos um pouco do assunto
temos que falar de uma GRANDE mulher, Emmy Noether. Ela se tornou a
mulher mais influente da matemática em uma época que as mulheres
eram proibidas de frequentar determinadas universidades (veja um
pouco da história dela aqui). Mas o que ela fez e porque isso é
tão importante?
Antes de
Noether, os cientistas já tinham notado que certas coisas, como a
energia elétrica e carga, eram "conservadas". Ou seja, a
quantidade de energia de um sistema é o mesma antes e depois de um
evento, como uma colisão por exemplo. Da mesma forma, a carga
elétrica pode se movimentar, mas a carga total permanece a mesma.
(Note que isso só funciona em sistemas "fechados", que não
estão ganhando ou perdendo energia ou cargas de uma fonte externa).
Mas ninguém compreendia exatamente por que essas coisas eram
conversadas, é aí que entra o trabalho de Noether.
| Noether |
O que ela
fez, a grosso modo, foi conectar essas leis de conservação com
simetrias matemáticas que podem ser expressas como equações. Wow,
isso foi simplesmente genial, pois o que ela fez foi mostrar que cada
simetria implicava em uma quantidade física conservada. Por exemplo,
se uma equação não foi alterada quando você a mudou de um ponto a
outro no tempo, significa que a energia foi conservada. Se você a
mudou entre um ponto a outro espaço e ela continua inalterada, então
seu momento linear foi conservado. Assim conseguiu-se explicar as
leis de conservação como a manifestação mensurável de simetrias
nas leis que regem o universo.
O teorema
de Noether levou a uma apreciação mais profunda do papel da
simetria nas leis que regem o universo. Agora, a simetria de uma
teoria particular, é uma das primeiras coisas que os físicos
consideram quando se avalia uma teoria.
Para um
físico a simetria tem valor estético e isso tem importância impar
quando “julgamos” nossas teorias. Sim, a beleza importa! Agora
toda vez que você olhar e se encantar com a beleza simétrica de
algo, lembre-se que esse também é o ponto de vista de beleza do
nosso universo.
Para o próximo texto,
tentarei tratar algo também muito importante, a quebra espontânea
de simetria. Porém eu ainda não faço idéia de como abordar isso
sem matemática, também não achei nenhum texto que tenha tentado.
Então é bem provável que demore um pouco para eu ter tempo de
escrever esse texto.
Referências:
Referência Base: Symmetry: How Beautiful Math Makes Elegant PhysicsLeitura complementar: Física em 12 lições, Fáceis e não Tão Fáceis - Feynman
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Posted by
Thiago V. M. Guimarães
Matéria e Energia - Energia escura, Matéria escura e a Massa do Fóton (pt 3)
Esse é o nosso último
texto da série Matéria e Energia, Aqui vamos abordar um pouco de
cosmologia e tratar também da relação entre o fóton e a famosa
E=mc².
Quando você pega um
texto ou um artigo de Cosmologia é comum ouvir falar de matéria,
radiação, matéria e energia escura. Então vamos começar esse
texto com alguns esclarecimentos sobre como esses assuntos são
tratados na cosmologia
Matéria X Antimatéria:
Um dos maiores interesses dos cosmólogos nesse assunto é tratar a
diferença de quantidade entre matéria e antimatéria no universo.
Pois no nosso universo a matéria ordinária existe em bem maior
quantidade que a antimatéria, embora sempre vejamos matéria e
antimatéria serem produzidas aos pares, esse é ainda um dos grandes
mistérios da cosmologia.
Matéria X Radiação:
No início o universo era um lugar muito quente e com o passar do
tempo ele foi se expandindo e esfriando, até que hoje sua
temperatura é de 2,7K. Podemos entender o universo em seu princípio
e evolução como sendo um gás, ou um plasma, de partículas em uma
determinada temperatura. Se nós medirmos a energia cinética média dessas
partículas nesses sistemas, iremos encontrar o valor kT, em que
k é a constante de Boltzmann e T é a temperatura. Nesse contexto, a
matéria é qualquer partícula que sua energia de repouso (mc²) é
grande em relação a energia cinética média das partículas (kT),
assim, a velocidade dessas partículas é bem menor que a velocidade
da luz. Por sua vez, radiação é qualquer partícula que sua massa
de repouso é muito pequena quando comparada da kT e,
consequentemente, sua velocidade é bem próxima a da luz.
Resumindo esse ponto, temos:
Resumindo esse ponto, temos:
se mc² > kT → partícula de matéria com velocidade menor que a da luz.
se mc² < kT → radiação com velocidade igual ou próxima a da luz.
Talvez não tenha
ficado tão claro para você, mas o que acabamos de definir mostra
que o que é ou não matéria depende da temperatura do nosso sistema
e, considerando que ele resfrie com o tempo, depende também do
tempo. Com isso, logo no início do universo, quando a temperatura
era de milhões de milhões de graus, o elétron
era considerado como radiação pelos cosmólogos. Hoje, com o
universo muito mais frio, o elétron está na categoria de matéria.
No universo atual, pelo menos dois dos três tipos de neutrinos são
matéria, ou talvez os três tipos, por esta definição, mas todos
os neutrinos foram radiação no início do universo. Fótons sempre
foram e sempre serão radiação, uma vez que eles não têm massa.
O que é a matéria escura?
Podemos dizer a partir
do estudo dos movimentos das estrelas e de outras técnicas que a
maior parte da massa de uma galáxia vem de algo que não brilha, mas que interage apenas gravitacionalmente, esse algo é o que chamamos de matéria escura. Um enorme trabalho foi feito para provar que as partículas
conhecidas, que se comportam de maneira comum, não podem ser
responsáveis por essa estranha massa e para explicar este efeito,
várias especulações foram propostas e muitas delas se mostraram erradas, através da observação de como as galáxias se parecem e se
comportam. Das especulações sobreviventes, um dos
principais candidatos é que a matéria escura é formada de
partículas pesadas e desconhecidas. Mas nós não sabemos quase nada
sobre elas. Experimentos em breve poderão nos trazer novos
conhecimentos, mas obviamente não temos garantia disso.
E energia escura?
Foi descoberto
recentemente que o universo está se expandindo cada vez mais rápido,
e provavelmente a responsável por isso é o que chamamos de "energia
escura", mas, infelizmente, essa “energia” não é realmente
energia. Como Sean Carroll gosta de dizer, essa “energia” é na verdade uma combinação
de pressão e densidade de energia. Então, por que as pessoas chamam
de "energia"? Parte do problema vem das relações públicas. Da
mesma forma que “partícula de Deus”, “energia escura” parece
um nome legal; já “tensão escura” soa estranho. É basicamente uma estratégia de marketing jornalístico e de certa forma isso é inofensivo, já que os cientistas
sabem exatamente o que se quer dizer por “energia escura”. Mas se
você realmente quer entender o que está acontecendo, é importante
saber que a energia escura não é uma forma escura de energia, mas
sim algo mais sutil. Além disso, como a energia, a energia escura
não é um objeto ou um conjunto de objetos, mas uma propriedade que
os campos ou combinações de campos, ou espaço-tempo em si podem
ter. Nós ainda não sabemos o que é o responsável pela de energia
escura, cuja presença podemos inferir a partir da aceleração do
universo, mas assim com a matéria escura, esperamos que com o tempo o assunto fique mais claro tanto para todos nós.
Uma das principais
coisas que você deve ter notado nessa série de textos é que nós
físicos somos péssimos com palavras e nem um pouco criativo para
criar nomes, eu mesmo já tive uns 3 cachorros com o nome de
“cachorro”, então não é nada surpreendente nomes como “Big
Bang”, “Buraco Negro” entre outros. Somo péssimos com isso e
geralmente a mídia se aproveita para disseminar nomes que chamam a
atenção. Mas nos perdoem.
Como falamos de
energia, matéria, massa, fótons e outros assuntos, acho prudente
encerrar essa série tratando de algo que estou cansado de ler:
“E=mc² diz que o fóton tem massa”. NÃO, isso não é verdade!
Vou tentar explicar com
um pouco de calma, pois vamos ter que usar matemática aqui
(quebrando a promessa de não usar matemática nesse blog). Apesar de
E=mc² ser uma das equações mais conhecidas da ciência, ela não
está na forma completa, pois ela não considera partículas sem
massa. A forma completa da famosa equação é na verdade:
E²=m²c⁴+p²c²
em que E é a energia
do corpo, m é a massa de repouso, c é a velocidade da luz, p é o
momento linear do corpo. Quando o corpo está parado, p é zero, e
caímos na famosa E=mc², quando m=0, como é o caso do fóton, temos
E=pc. Ou seja, partículas sem massa tem automaticamente velocidade c (elas nunca estão paradas).
Aí você, que é um
cara inteligente e aprendeu bem o conteúdo do ensino médio, vai
dizer; “mas momento não é a relação entre massa e velocidade
(mv)?”. Sim você está certo, mas para ondas eletromagnéticas o
momento é dado pela constante de Planck (h) dividida pelo comprimento de onda (λ). Assim o fóton tem energia sem precisar ter massa.
Então, quando em uma
discussão alguém argumentar que o fóton tem massa devido a
“E=mc²”, saiba que está errado, pois essa equação não vale
para partículas sem massa, para esse caso o correto é “E=pc”,
que pode ser simplificado para “E=hf”, em que f é a frequência
do fóton.
Resumindo, temos 3 casos diferentes para a energia:
Partículas com massa em repouso:
E=mc²
Partículas com massa em movimento:
E²=m²c⁴+p²c²
Partículas sem massa (sempre em movimento):
E=pc
Mas a história da
massa do fóton não é um assunto tão simples, que espero abordar
em outra oportunidade, mas deixo aqui alguns pontos em aberto para
tentar atiçar a curiosidade de vocês; nós afirmamos que o fóton
tem massa zero, mas nós até hoje só conseguimos calcular um limite
superior para sua massa, não um inferior. Então, isso é suficiente
para afirmar que o fóton não tem massa? Algumas outras teorias
confirmam que o fóton não tem massa? Existem teorias de fótons
massivos? Se fótons tivessem massa aconteceria algo com a teoria da
relatividade?
Pense sobre essas
questões, espero abordá-las em um outro texto em breve.
Aqui encerramos nossa
série de 3 textos sobre Matéria e Energia, espero que tenha sido
útil para alguém e que tenha deixado vocês com dúvidas e vontade
de pesquisar mais.
Lembrando que esses
textos foram baseados nos textos do professor Matt Strassler, o qual
eu traduzi, adaptei, acrescentei, retirei, melhorei (ou piorei).
Então se você tiver domínio do inglês vá no blog dele e veja os
textos nos quais me baseei para escrever esses aqui, têm coisas excelentes lá!
Buracos Negros de Matéria Escura são Portais de Viagem no Tempo Para outros Universos
Olá, com certeza você
clicou no link para ver esse texto porque você se interessa por um
dos (ou todos) temas do Título. Mas me diga, qual é o nível de
relevância dessa informação para você? Você de fato conhece
todas as leis da física envolvidas? Sabe sobre todas as teorias que
possibilitaram essa descoberta? Sabe ao menos uma delas? Saberia
dizer se o texto é um amontoado de bobagens ou se está correto?
Você confiaria nas informações que “alguém” posta nesse blog?
Esse texto não será
sobre o que você está esperando que seja, mas sim reflexão da
forma que você busca por ciência. Então desde já adianto que o
que eu escrevo a baixo não serve para todos, não tem nomes escritos
aqui, então você veste a carapuça se quiser. Também a crítica
não é para quem se interessa por esse tipo de informação, mas sim
para aqueles que somente buscam sensacionalismo sem qualidade e se
consideram admiradores da ciência.
Nós que trabalhamos
formalmente ou informalmente com divulgação científica na internet
há tempos, temos notado que a maior parte dos nossos leitores não
querem de fato ler sobre ciência, mas querem ler sensacionalismos
sem o mínimo de reflexão. Então eu pergunto; Se o conteúdo desse
texto fosse de fato o que o título diz, qual seria a relevância do
assunto? O que realmente você entenderia dele? Ele violaria algum
princípio físico? Ele agregaria algo ao seu conhecimento que você carregaria de forma sólida por sua vida ou seria uma simples
masturbação da sua curiosidade?
| O que é essa imagem? Já ouviu falar sobre Raio de Schwarzschild? |
Cruzando e Analisando
Informações:
Quando você pega para
ler um texto sobre ciência, qual a segunda coisa que você repara
após o título?
Se você respondeu “as
imagens”, você já começou colocando o pé no lugar errado. A
primeira coisa a se reparar, após o título, na hora de ler um texto
é no site/blog que ele está postado. Se for no Tecmundo, esqueça...
até hoje tenho dor no rim de lembrar deles chamando o Big Bang de
“explosão galáctica”. A segunda coisa a se reparar é a fonte
utilizada para escrever o texto, leia ela também, pois muitos blogs
citam fontes que nem sequer usam. Mas o meu ponto aqui não é
exatamente onde você busca informação, mas sim como você absorve
ela. Então vamos a um exercício:
Agora vou passar dois
textos para vocês sobre o mesmo assunto e por favor leiam
eles antes de continuar esse texto:
Supondo
que você não foi preguiçoso e leu os dois textos acima, saberia me
dizer qual está correto e qual está errado? Não analise pelo nome
do site, nem pelas fontes, nem pela forma que a pessoa escreve e nem
pelas imagens utilizadas, mas somente pelo conteúdo. Pegue o texto
que você acredita estar errado e diga a você mesmo o porquê de
aquele texto estar errado, os seus conhecimentos de física são o
suficiente para isso? Pelo que você sabe é a entropia o fator chave
desse assunto? O que é entropia e qual sua relação com a
temperatura?
Se o seu conhecimento
não falhou nesse momento, parabéns! Mas se falhou está na hora de
você rever seriamente como você tem assimilado as informações
sobre ciência que você recebe. Ler é diferente de se informar com
qualidade, então atente para isso.
![]() |
| Que coisa é essa? |
Se compraria, você
sabe me dizer se de fato o que é afirmado nesse livro é
conhecimento científico?
Se não compraria,
saberia me dizer por qual motivo ele é (e se é) uma grande
besteira?
Você saberia refletir
sobre o conteúdo desse livro de um ponto de vista científico? É possível a ciência provar esse tipo de coisa?
Saber um pouco de
ciência antes de se deparar com conteúdos mais avançados não é
somente uma forma de absorver e julgar melhor o conteúdo que você
busca, mas é também uma forma de não se deixar enganar por
qualquer coisa que tenha “cientificamente provado” no título, é
não se fazer e não deixar que te façam de bobo. E tome cuidado,
tem muito picareta tentando ganhar dinheiro em cima do que você se
interessa, mas não entende bem.
Mas e se eu não
quiser?
Nesse caso não posso
fazer nada a não ser lamentar e pedir que você reflita sobre isso, pois
toda vez que você lê um artigo errado ou pseudocientífico e
divulga isso em seu facebook, twitter, blog, etc, você está, na
verdade, contribuindo para a desinformação científica e também
para o analfabetismo científico, agindo assim contra os esforços de
milhões de cientistas que tentam levar a ciência a população de
forma concisa e correta.
Tá, mas e aí?
O que eu quero dizer
com essas questões é simples; Utilize sua curiosidade sobre ciência
para construir um conhecimento que te agregue algo, que seja sólido.
Estude ciência, não precisa ser de forma acadêmica, mas você precisa saber o mínimo de física antes de ler um texto mais complexo. Sem esse mínimo de conhecimento você não consegue julgar a qualidade da
informação que recebe e acaba virando uma lata de lixo de
“informações” sem sentido. Então pare de preguiça e vá
estudar, para entender o básico você não irá precisar de muito
mais do que você já viu no Ensino Médio. Pesquise bem antes de
“acreditar” em algo, leia em várias fontes, se questione sobre
aquilo em relação aos seus conhecimentos básicos e pergunte para
alguém que entenda mais de ciência que você sobre o assunto. Dessa
forma você consegue se informar com qualidade, consegue refletir
sobre o assunto, interagir com o tema, ao invés de receber qualquer
tipo de bullshit passivamente.
Então,
antes de querer entender relatividade, aprenda cinemática, leis de
Newton, transformações de Galileu. Antes de querer entender buracos
negros aprenda sobre gravitação, termodinâmica. Antes de querer
entender viagens no tempo, estude uma introdução a relatividade, a
história dela. Sem um prévio estudo da física você conseguirá
apenas um amontoado de informações desconexas te impossibilitando
de construir um conhecimento sólido e verdadeiramente útil para
você!
Há, ia me esquecendo. O motivo pelo qual fiz esse texto é que sempre vejo reclamações (inclusive eu mesmo reclamo) que textos e posts sobre ciência NUNCA dão muitos acessos e compartilhamentos. A única coisa que chama a atenção dos leitores são sensacionalismos e fotos bonitas, aí resolvi fazer esse texto armadilha.
Há, ia me esquecendo. O motivo pelo qual fiz esse texto é que sempre vejo reclamações (inclusive eu mesmo reclamo) que textos e posts sobre ciência NUNCA dão muitos acessos e compartilhamentos. A única coisa que chama a atenção dos leitores são sensacionalismos e fotos bonitas, aí resolvi fazer esse texto armadilha.
Obs.:
1 - Se você compartilhar esse texto sem ler, você é um verdadeiro babaca (sim, é tipo um xingamento pelas costas)
1 - Se você compartilhar esse texto sem ler, você é um verdadeiro babaca (sim, é tipo um xingamento pelas costas)
2 - Não precisa postar comentário dizendo que você é diferente, que você não faz isso, pois se fato você não é assim o texto não foi escrito para você!
Matéria e Energia - Partículas e Campos (Pt 2)
Aqui está nosso segundo texto da série Matéria e Energia. Como eu sou péssimo com planejamentos, esse texto será sobre campos e partículas que corresponde aos tópicos 3 e 6 do combinado e no próximo abordarei os tópicos 4 e 5.
Como
vimos anteriormente, não é uma tarefa fácil definir em palavras o
que é energia, já a definição de matéria se mostra ainda mais
difícil. E nessa nossa tentativa de definir coisas bem difíceis
daremos mais um passo.
Nossa
concepção atual do mundo físico é formada por uma grande
variedade de experimentos e descobertas que ocorreram entre os anos
1900 e 1970. Esse conhecimento não é nada de sobrenatural,
mas leva um certo tempo para as pessoas que cresceram com uma visão
arcaica virem a realidade por um novo ponto de vista, e alguns de fato nunca
irão ver. Também leva um tempo para uma versão mais recente de uma
visão de mundo a entrar em foco nítido para a própria ciência.
Hoje,
se alguém quiser falar sobre o mundo no contexto do nosso ponto de
vista moderno, pode-se falar em primeiro lugar dos "campos e as
suas partículas”. Os campos são os ingredientes básicos do
universo¹, hoje em dia esse é o nosso paradigma dominante. Vemos os
campos como mais fundamental do que as partículas, porque você não
pode ter uma partícula elementar sem um campo, mas você pode ter um
campo sem quaisquer partículas. No entanto, acontece que todos os
campos conhecidos têm uma partícula conhecida², por exemplo, o campo
eletromagnético tem o fóton, o campo de Higgs tem o bóson de
Higgs. De forma geral, cada campo fermiônico tem seu férmion
relacionado assim como cada campo bosônico tem seu bóson.
O que
"campos e partículas" têm a ver com a "matéria e
energia"?
Campos
não são matéria propriamente dita e partículas, como definimos
antes, podem ser ou não matéria, vai depender se elas são
partículas de matéria ou de força. Para te lembrar, definimos
partículas de matéria, os elétrons, neutrinos,
quarks,etc e partículas de força, os fótons, bósons W's, bósons Z's, etc.
Então
as primeiras conexões que temos são:
Campos → Não são matéria propriamente dita.
Partículas → Podem ser ou não matéria, vai depender de suas características.
Agora
vamos para a relação entre campos e partículas com a energia.
Mesmo
que você saiba pouco sobre a área de partículas e campos, é um
tanto intuitivo pensar que todos os campos e partículas podem ter energia. Mas
eles são energia?
A
resposta é não! Como definimos anteriormente a partícula pode ter
energia, mas ela não é energia, da mesma forma que minha casa é da
cor branca, mas ela não é a cor branca. O mesmo vale para o campo,
ele pode possuir energia, mas ele não é energia, a energia é uma propriedade sua. Posso, quem sabe em um texto mais técnico no
Relative Thinking, mostrar como descobrimos a energia de um campo,
mas isso é assunto para outra hora.
É bem
complicado falar sobre campos e sua relação com partículas, quebra
de simetria, etc. Então peço que no momento se contentem com o esse link aqui, mas em um futuro próximo prometo fazer um
texto sobre o assunto (me cobrem se eu esquecer).
Resumindo
essa relação entre campos e partículas com energia:
Campos e Partículas → Não são energia, energia é uma propriedade deles.
Dessa
forma vemos que os ingredientes mais básicos do no universo, os
campos, não são energia e não são necessariamente matéria. Sim, é
algo bem abstrato.
Para encerrar a segunda parte quero tentar desfazer um problema que pode ter ocorrido durante esse texto. Que é a relação “Partícula de Matéria” e “Partícula de Força”.
Dividir partículas nas duas classes “Partícula de Matéria” e “Partícula de Força” é um pouco arbitrária. Para nosso texto ela funciona bem, pois falamos que as partículas de força e suas antipartículas estão associadas com as quatro forças da natureza que conhecemos, enquanto as partículas de matéria e suas antipartículas são todas as outras partículas. E há muitas situações em que essa divisão é conveniente. Mas nós poderemos facilmente descobrir partículas que não se enquadram nesta classificação, um exemplo é o bóson de Higgs, pois ele não está relacionado a uma força, mas também não está na categoria de “matéria”.
No
decorrer do texto, eu fui tentando utilizar uma divisão alternativa
(mas muito diferente) e que faz mais sentido: ora eu chamava de
partículas de matéria outra eu chamava de férmions, e ora eu
chamava de “partícula mediadora de força” outra de bósons.
Essa definição é mais abrangente e mais correta, pois abarca mais
partículas, inclusive o Higgs que não faz mediação de força, mas
sim de massa³.
Assim
é mais conveniente dividir em:
Bósons:
São partículas que não podem ser consideradas matéria
propriamente dita, e existe também uma lista delas aqui (sem o Higgs).
Essas partículas e as interações que ela mediam são organizadas e estudadas em uma teoria que chamamos de modelo padrão.
Apesar
da nossa definição arbitrária do primeiro texto, o que de fato
temos é que todas as partículas da natureza são simplesmente
partículas, algumas das quais são antipartículas de outras, e não
há apenas uma única maneira de dividi-las em classes. A razão pela
qual eu usei "matéria" e "força" é que isto é
um pouco menos abstrato do que "férmions" e "bósons".
A
diferença real entre bóson e férmions é um tanto complexa de se
explicar do ponto de vista da física, pois utilizamos conceitos um
tanto complexos, mas como disse, eu tentarei (assim que surgir tempo)
escrever um texto abordando o assunto.
Por hoje é só pessoal. Lembrando que esses textos são nada mais que um incentivo à vocês a buscarem mais informações e também para abrir margem para novos textos dessa área.
1 - Para alguns físicos, o mais fundamental do universo são os espinores, mas isso não desvalida em ponto algum o que falamos acima, além de ser um assunto que não cabe aqui.
2 - O campo gravitacional teria como partícula o Gráviton, porém ele é uma partícula problemática que está um pouco longe de uma confirmação experimental.
3 - Caso queira entender melhor sobre isso, leia esse texto (mas leia logo que esse blog será apagado!): E o bóson de Higgs, a quantas anda?
segunda-feira, 29 de julho de 2013
Posted by
Thiago V. M. Guimarães
Notas nas graduações científicas
Os
últimos textos postados abordaram
situações que fazem parte do nosso cotidiano. E então,
aproveitando essa linha, e como sinto falta de um texto a respeito
desse assunto, resolvi escrever para mostrar um pouco da realidade
dos graduandos, para quem pretende entrar na universidade e também
para levantar questões que acredito pertinentes.
Claro
que não conseguirei escrever a respeito de todos os problemas que
enfrentamos, mas futuramente posso tentar escrever mais acerca de
como é estar na graduação, como está o preparo de quem entra na
graduação e como os formandos, em média, saem da graduação. Acho
que esses pontos são muito importantes, pois esses graduandos e
recém formados poderão ser nossos pesquisadores e professores.
Então,
vamos ao que interessa.
Algo
que percebi desde que entrei na graduação é que apesar dos
professores afirmarem que nota não é importante, no fundo isso é
cobrado de nós todos os dias, tanto pela postura de muitos
professores quanto do que é avaliado para conseguirmos um orientador
e uma bolsa de iniciação científica.
Mas
a pergunta que fica é: qual o problema de nos focarmos nas notas?
Bem,
eu vejo de uma maneira simples. Em grande parte das vezes a nota não
avalia corretamente um aluno, mas o problema vai além. Quando o
aluno foca em tirar notas e não em aprender, temos um problema
grave. Porque assim o aluno está se preparando para responder o que
o professor quer ler (ou ouvir em alguns casos), ao invés de estar
refletindo e construindo seu conhecimento de forma significativa , ou
seja, o aluno se tornou uma maquininha de resolver "problemas"
padrões e não alguém que um dia poderá ser um pesquisador ou
professor que se deparará com diversos problemas diferentes não
vistos em sua graduação e será capaz de trata-los de forma
crítica.
Então
é possível perceber que não se está oferecendo a esses alunos a
oportunidade da reflexão e da crítica, mas sim uma receita de bolo
ensinada pelos livros e professores,o que pode acarretar que diversas
pessoas não desenvolvem
criatividade e reflexões críticas, fazendo com que o processo de
formação de pesquisadores se torne muito mais longo. Além de esses
alunos poderem não ter aprendido significativamente o conteúdo, de
forma que o mesmo poderá ser esquecido no futuro.
A
iniciação científica foi uma forma para tentar reduzir esse
problema, visando ensinar ao aluno que o processo de aprender, apesar
de desenvolvido coletivamente, é individual, e deve ser buscado por
conta própria. Mas mesmo assim o aluno se forma mal preparado e não
desenvolve uma mentalidade de pesquisador, pois se acostumou com um
método tradicional e individualista. A bem da verdade, muitos
graduandos (principalmente bacharéis) saem sem saber o básico a
respeito de métodos científicos e sua validade, da diferenciação
de fontes confiáveis e inseguras, da compreensão e importância de
debates acerca do que é ciência e qual seu impacto social,
político, cultural, entre outros.
Mas
alguém pode perguntar, ao estudar para uma prova você já não
estaria aprendendo? Essa é uma questão relativa. No curso de
Física, apesar de termos poucos assuntos durante um semestre, esses
assuntos são mais aprofundados, o que faz que tenhamos muitas provas
e assim menos tempo para nos dedicarmos para aprender, e a forma como
são abordados faz com que seja mais fácil e vantajoso estudar para
uma prova pelas listas que os professores fornecem e anotações das
aulas do que tentar aprender e demonstrar como surgiram aqueles
conceitos físicos e matemáticos.
Isso
que nem estou levando em conta que deveríamos também compreender
relações histórica e filosófica por trás daqueles conceitos,
porque além delas nos ajudarem a fixar e entender melhor como e por
quem a ciência é construída, nós iremos dar aulas. Ou você achou
que mesmo sendo bacharel não ia ter que dar aulas? Aqui no Brasil
existem poucas áreas na ciência que você não terá que ir para a
área acadêmica, ou seja, você cursou bacharel, não foi preparado
para ensinar, não foi preparado para pensar sozinho para resolver
problemas mais complexos, não conhece as discussões que rodeiam a
ciência e vai se tornar um professor.
Esse
é um dos motivos de por que na graduação termos muitos professores
que não fazem ideia de como ensinar e nem do que estão fazendo em
sala de aula. Sendo que esses professores só conhecem, ou acreditam
no método tradicional de ensino, e estão acostumados com provas que
não são reflexivas e não tentam investigar se a aprendizagem de um
aluno foi significativa. Sendo assim, o professor não faz uso de um
instrumento real para saber se seus alunos estão aprendendo, apenas
aquele único instrumento que é a prova.
Mas
os problemas não param por aí, as provas não avaliam corretamente
os alunos que tem déficit de atenção, hiperatividade e outras
síndromes que prejudicam a desenvoltura dos alunos em provas. Sem
dizer que mesmo os alunos que não possuem nenhuma síndrome também
estão sujeitos a não estarem em perfeito estado de concentração
para a prova. Alguns professores podem dizer que isso faz parte, mas
me desculpe professor, não faz parte não. Um aluno não deve ser
avaliado pela sua concentração em dias específicos do semestre.
Não é assim que iremos pesquisar no futuro e muito menos vocês
professores dão aula sem nenhuma anotação (apenas raríssimos
professores dão aula de cabeça sem consultar nada).
Ou
seja, um professor quer avaliar e descontar por sua falta de atenção,
por você ter respondido como ele queria a resposta e não como você
compreendeu de fato, por você conseguir ter se tornado uma máquina
de resolver problemas. Bom e agora, isso tem solução? Essa solução
é viável?
Como
esse problema é muito complexo e não depende apenas dos
professores, mas também de toda nossa estrutura educacional que
sufoca a criatividade dos alunos, essas mudanças serão muito
lentas. Algo que deveria ser revisto, é a forma que as provas são
estruturadas, e não ser somente elas que constituam com maior peso a
avaliação dos professores sobre os alunos. As avaliações deveriam
ser feitas de uma forma a instigar o aluno a refletir sobre aquele
problema, assim como isso deveria acontecer nas aulas. Não deveriam
avaliar se um aluno sabe fazer 10, 25, 50, 100 ou 1.000 exercícios,
mas se ele conseguiu entender o mecanismo por trás desses problemas.
Também acho que tanto os alunos como os professores deveriam se
envolver mais com a história e os debates que ocorreram por trás
daquele conteúdo.
O
professor também não deveria avaliar se o aluno sabe ser um bom
piloto de avião que sabe lidar com uma grande pressão em pouco
tempo, como é uma prova. Porque no futuro aquele aluno que se
tornará um professor/pesquisador não lidará com situações como
essas, na verdade ele terá certo tempo para conseguir pesquisar e
montar suas aulas. Além de ter todo o apoio de um material
disponível para tirar suas dúvidas.
Então,
realmente professores o que vocês tentam avaliar nos alunos de
graduação com provas que não estimulam o aluno a pensar, com uma
situação que ele não passará na sua vida de pesquisador?
Deixo
como indicação alguns textos de tratam muito melhor que eu desse
assunto e dão métodos alternativos, até mesmo já testados aqui no
Brasil e que tem uma excelente eficácia para desenvolver o
pensamento crítico e a compreensão conceitual dos alunos:
- Entrevista com Eric Mazur
- A Aplicação de uma Nova Metodologia de Ensino de Física: O Aprendizado Colaborativo
- A Aplicação de uma Nova Metodologia de Ensino de Física: O Aprendizado Colaborativo
Gostaria de agradecer ao Adriano Ortiz que me deu grande apoio para escrever esse texto, sendo o co-autor desse texto.
domingo, 28 de julho de 2013
Posted by
Rubia Guimarães







