Dualidade Onda-Partícula e Função de Onda
Continuando nossa série de textos sobre Mecânica Quântica. No texto anterior abordamos uma introdução não histórica sobre o assunto e hoje vamos falar sobre a dualidade onda partícula e função de onda.
Sir Isaac Newton acreditava que a Luz era uma partícula, que podia colidir e ricochetear em um espelho ou uma superfície, assim como uma bolinha quando você a joga na parede. Entretanto na metade do século XIX, a partir de vários trabalhos no eletromagnetismo, pudemos demonstrar suas propriedades, como sua velocidade, polarização, etc., como manifestações de campos eletromagnéticos. Por exemplo, utilizando o eletromagnetismo clássico, podemos construir uma função matemática que rege ondas eletromagnéticas, da seguinte forma:
$\nabla^{2}E=\epsilon_{0}\mu_{0}\frac{\partial^{2} E}{\partial^{2} t}$
$\nabla^{2}B=\epsilon_{0}\mu_{0}\frac{\partial^{2} B}{\partial^{2} t}$
As equações acima são o que chamamos de equação diferencial de segunda ordem (e você pode ler sobre elas aqui), elas nos dão o comportamento dos campos elétricos e dos campos magnéticos, ou seja, como eles se propagam. Se as constantes $\epsilon_{0}$ e $\mu_{0}$ são bem conhecidas por nós desde o ensino médio como permissividade elétrica do vácuo e permeabilidade magnética do vácuo, respectivamente. Se olharmos com cuidado para essa equação vemos uma coisa importante, a $\epsilon_{0}$ possui dimensão dada por $\frac{s^{4}A^{2}}{m^{3}Kg}$, por sua vez $\mu_{0}$ possui dimensões dada por $\frac{N}{A^{2}}$, sendo $s$ segundos, $A $ Ampére , $m$ metros, $N=kgm/s^{2}$ Newton. Com isso vemos que o produto $\epsilon_{0}\mu_{0}$ possui a dimensão $\frac{s^{2}}{m^{2}}$, ou seja, é o inverso do quadrado da dimensão de velocidade, assim podemos escrever
$v=\frac{1}{\sqrt{\epsilon_{0}\mu_{0}}}$
Aqui vemos que a velocidade de propagação da onda eletromagnética depende apenas da constante de permissividade elétrica do vácuo, $\epsilon_{0}$, e a permeabilidade magnética do vácuo, $\mu_{0}$. Mas o ponto interessante é que o resultado da equação da velocidade bate muito bem com a velocidade da luz. Para verificar isso, vamos substituir os valores das constantes na equação, então
$v=\frac{1}{\sqrt{8.854187817x10^{-12} 1.2566370614x10^{-6}}}m/s$
$v= 2,997924580 × 10^{8}m/s$
fazendo o cálculo:
$v= 2,997924580 × 10^{8}m/s$
podemos concluir que
$v \cong c$
Esse resultado foi tão surpreendente que o próprio Maxwell concluiu:
Esta velocidade é tão próxima da velocidade da luz que parece que temos fortes motivos para concluir que a luz em si (incluindo calor radiante, e outras radiações do tipo) é uma perturbação eletromagnética na forma de ondas propagadas através do campo eletromagnético de acordo com as leis eletromagnéticas.
Ow, isso é óbvio para nós hoje em dia, mas na época foi um baita resultado, praticamente tínhamos provado que a Luz era uma onda eletromagnética.
“Mas então abandonamos a visão da luz como sendo uma partícula?”
Not so fast! Lembra-se do texto passado? Nele vimos que a teoria do eletromagnetismo não conseguia explicar a radiação de corpo negro e foi preciso quantizar a energia, ou seja, uma onda eletromagnética de frequência $\nu$ só poderia ter energia igual a múltiplos inteiros de $h\nu$ (constante de Planck vezes a frequência da onda). Em 1905 Einstein¹ generalizou essa ideia e trouxe de volta a interpretação da luz como partícula. Agora, a luz era vista como feixe de quantas, chamado de fótons, com energia $h\nu$. Vinte anos mais tarde, essa hipótese foi comprovada experimental por meio do efeito Compton.
De tudo isso podemos concluir que a interação de uma onda eletromagnética com a matéria ocorre por meio de processos indivisíveis elementares, em que a radiação parece ser composta por fótons.
Agora vamos focar nossos esforços em entender melhor essa dualidade onda-partícula a partir do experimento da Dupla Fenda de Young. Nossa meta é ver claramente que a descrição completa do fenômeno só pode ser dada se considerarmos os aspectos de partículas e ondulatórios da luz.
Veja abaixo essa imagem que furtei desse site:
Na imagem temos uma fonte de luz monocromática (uma cor só), que incide em uma barreira (pode ser uma chapa de metal) com duas fendas. Após parte da luz que passa pelas fendas ela irá atingir uma tela (screen) posta atrás da barreira. Inicialmente tapamos uma das duas fendas e obtemos o resultado abaixo:
| difração de ondas ao passar por uma fenda |
Na imagem acima podemos ver o claro padrão de difração de uma onda, semelhante ao padrão de ondas sonoras, por exemplo, ao contornar um obstáculo, ou mesmo a água, como é possível na imagem abaixo:
![]() |
| difração na água |
Quando deixamos as duas fendas abertas iremos obter um padrão de interferência nas ondas, como na Imagem abaixo. Nela as regiões escuras na intersecção das ondas são os padrões destrutivos que ocorrem quando as ondas eletromagnéticas se sobrepõem.
![]() |
| Padrão de interferência da luz forma as linhas escuras longitudinais |
A interpretação do fenômeno a partir do ponto de vista de partícula diz que se diminuirmos a intensidade da fonte de luz até que saia um fóton por vez, os padrões de interferência iriam desaparecer e teríamos apenas duas faixas de luz na tela (screen), uma atrás de cada fenda, pois um fóton iria sair e passar por apenas uma das fendas e atingir a tela, então depois viria um outro fóton, passaria por uma das fendas e também atingiria a tela. Porém a visão ondulatória do problema, diz que mesmo diminuindo a intensidade da fonte, a luz não deixa de ser onda e passa pelas duas fendas ao mesmo tempo e cria, ainda que fraco, um padrão de interferência. Esse ponto seria crucial para determinarmos se o correto seria visualizar a luz como partícula ou como onda. Mas a natureza gosta de nos sacanear e o que acontece na prática não concorda nem com a predição de partícula nem com a de onda.
Quando nós deixamos a tela exposta por um bom tempo a luz monocromática incidente, vemos que o padrão de interferência não desaparece quando diminuímos a intensidade da fonte para apenas um fóton por vez. Porém se deixamos a tela exposta por um curto intervalo de tempo, o que vemos são impactos localizados, sem nenhum padrão de interferência, e ainda mais, se colocarmos um contador de fótons atrás das fendas, veremos que o fóton emitido pela fonte irá passar por apenas uma das fendas, o que também corrobora para a interpretação de partícula. Isso soa muito paradoxal, pois temos comportamentos de partículas e de ondas que parecem mutualmente excludentes.
(se está confuso para você ainda, veja esse vídeo do dr Quantum, o que ele tem de bizarro, em contrapartida, tem de didático, mas ignore o final em que ele fala sobre o elétron saber que está sendo observado, isso não tem nada a ver).
(se está confuso para você ainda, veja esse vídeo do dr Quantum, o que ele tem de bizarro, em contrapartida, tem de didático, mas ignore o final em que ele fala sobre o elétron saber que está sendo observado, isso não tem nada a ver).
Espera lá, vamos enunciar os problemas que andamos tendo aqui:
1 – A luz parece se comportar ora como partícula ora como onda
2 – Ao passar pelas fendas, ela se comporta como partícula, já que ela passa por apenas uma das fendas por vez. Porém se esperarmos um certo tempo começaremos a ver um padrão de interferência, logo, precisamos que tenham fótons passando por ambas as fendas.
“mas como isso, cara? Se todos os fótons são emitidos de forma exatamente iguais eles não deveriam passar todos pela mesma fenda?”
Pois é, aqui temos um primeiro problema... a luz está passando por duas fendas diferentes, enquanto a física clássica diria que, como os fótons são emitidos exatamente iguais, eles deveriam sempre ter a mesma trajetória, e portanto, passar pela mesma fenda. Os dois itens acima quebram dois aspectos importantes da física clássica. O primeiro, quebra a visão de que onda e partícula são coisas distintas, o segundo quebra a visão de que condições iniciais iguais levam a trajetórias iguais (não havendo agentes externos), agora não podemos mais dizer por qual fenda a partícula irá passar, apenas podemos calcular a probabilidade dela passar pela fenda $S_{1}$ ou pela $S_{2}$.
Depois de muita relutância, o conceito de dualidade onda-partícula foi cunhado e bem estabelecido da seguinte forma:
- As características de onda e partícula são inseparáveis. A luz se comporta simultaneamente como uma onda e como um fluxo de partículas, a onda que nos permite calcular a probabilidade da manifestação de uma partícula.
- As previsões sobre o comportamento de um único fóton pode ser probabilística.
- As informações sobre um fóton (em um determinado tempo) são dadas por uma onda eletromagnética, que são soluções das equações de Maxwell. Dizemos que esta onda caracteriza o estado dos fótons no tempo e pode ser interpretada como a probabilidade de um fóton aparecer em algum lugar, num determinado instante de tempo.
Em 1924, o físico francês de Broglie generalizou esse comportamento de onda-partícula para demais objetos, como o elétron por exemplo (veja mais aqui).
Agora que sabemos que um fóton tem comportamento probabilístico e que ele pode ser tratado como onda e partícula, vamos entrar finalmente na mecânica quântica e ver como tratamos o fenômenos nessa abordagem.
Uma vez que para partículas subatômicas o caráter ondulatório é muito visível e importante, precisamos introduzir uma ferramenta matemática chamada de função de onda $\psi$. Essa função tem importância fundamental na mecânica quântica, uma vez que ela serve para descrever as principais características da partícula, como a energia, momento, posição, como eles se comportam e, a partir dela, ainda podemos calcular a probabilidade de se encontrar uma partícula (um fóton por exemplo) em uma fenda ou em outra.
Mas nada é tão simples, para se obter essa função de onda $\psi$, precisamos extrair soluções da famosa equação de Schrödinger (é versão hardcore do “encontre o $x$" da matemática do ensino médio). A equação abaixo é a equação de Schrödinger, ela é o que chamamos de equação diferencial parcial de segunda ordem em uma dimensão² ($x$) e existem vários métodos para se obter soluções de $\psi$, o interessante é que equações diferenciais não nos dão apenas uma resposta, mas sim um conjunto delas.
$ i\hbar\frac{\partial \psi}{\partial t}= \frac{-\hbar^2}{2m} \frac{\partial^2}{\partial x^2}\psi + V \psi$
Mas antes precisamos compreender o que ela significa termo a termo, vamos lá:
$i = \sqrt{-1}$, é um número imaginário. $ \hbar$ é a constante de Planck reduzida, e vale $6.582... \times 10^{-16}eV\ s$. $\frac{\partial \psi}{\partial t}$ é a variação da função de onda no tempo, ou seja, é como ela se comporta a medida que o tempo passa. $m$ é a massa da partícula que estamos descrevendo. $ \frac{\partial^2}{\partial x^2}\psi$ é a variação espacial da função de onda, ou seja como ela se comporta a medida que ela evolui no espaço. $V$ é um potencial que age sobre a partícula. Agora podemos voltar a solução da equação.
Ao resolvermos a equação acima encontramos a forma de $\psi$, veremos que ele pode nos dar um conjunto de funções de onda diferentes, com energias diferentes, e podemos chamar isso de "estados quânticos com energias diferentes".
O resultado mais simples da equação de Schrödinger é para uma partícula livre em uma dimensão:
$\psi (x,t)= A e^{i(kx -\omega t)}$
$A$ é uma constante que podemos obter por um processo de normalização, $e$ é a nossa exponencial, $i$ é um número imaginário ($i=\sqrt{-1}$), $k$ também é uma constante, $x$ é a variável espacial, $\omega$ é uma frequência angular da partícula, e $t$ é a variável temporal. Um ponto fundamental que devemos falar aqui é que uma função de onda como acabamos de ver não pode ser medida em laboratório. Na mecânica as quantidades passíveis de serem medidas são chamadas de observáveis e elas precisam ser terminantemente reais. Assim é possível medir as energias e os momentos relacionados a determinada função de onda, embora não seja possível medir a função de onda em si.
No próximo texto veremos como a função de onda nos fornece uma descrição probabilística do comportamento das partícula, uma vez que elas são muito pequenas, seu estado é dado pela interpretação estatística de Born, sobre a função de onda, em que $|\psi|^2$ é a probabilidade de se encontrar a partícula em um ponto $x$, no instante $t$. Também abordaremos alguns formalismos relacionado a isso.
Bibliografia:
- Cohen-Tannoudji - Quantum mechanics, vol 1. (onda partícula)
- Griffhtis - Introdução a Mecânica Quântica (função de onda)
- Toledo Piza - Mecânica quântica. (detalhes adicionais)
- Holzner - Quantum Physics For Dummies (detalhes adicionais)
1 - Por meio dessa nova abordagem, Einstein conseguiu explicar o efeito fotoelétrico, que lhe rendeu o prêmio Nobel.
2 - também temos a equação de Schrödinger em 3 dimensões, mas aqui queremos a mais simples, com as mais simples soluções.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
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Thiago V. M. Guimarães
Inflação Cósmica, Big Bang e dados do BICEP2 - Uma base para você tentar entender
Recentemente tivemos um grande evento na ciência, vários blogs que eu gosto bastante fizeram ótimos textos e comentários sobre o assunto. Como essa semana foi mais tranquila para mim, resolvi escrever um texto para servir de background para te ajudar a entender um pouco do assunto.
Esse texto é uma visão bem superficial de vários assuntos, a intenção é apenas te dar uma base e te nortear para entender um pouco mais, logo, é essencial que você leia os textos linkados, bem como as fontes.
Carl Sagan disse que para se fazer uma torta de maçã do zero, primeiro era preciso criar o universo. Para entendermos bem tudo que aconteceu também precisamos criar o universo, pois as novas descobertas remetem a dados de acontecimentos muito próximos do Big Bang.
Sem dúvida você já deve ter lido bastante aquela coisa de que o universo era um ponto muito denso, chamado de ovo cósmico que explodiu e deu origem ao universo. E isso é uma pena, pois essa "explicação" é uma caricatura de péssimo gosto sobre o que de fato pensamos e sabemos sobre o Big Bang.
Quando eu me refiro a universo, quero dizer universo observável.
Quando eu digo Big Bang, me refiro ao Big Bang Quente.
Geralmente, a abordagem didática desse assunto tende a puxar para o lado do poético, do maravilhoso e se esquece da ciência por trás da coisas. Para que possamos entender alguns pontos importantes sobre o inicio do universo é preciso conhecer bem a mecânica quântica e a relatividade geral em âmbito acadêmico, no mais, o que podemos fazer aqui é apenas dar uma tratamento bem superficial do que realmente essas teorias dizem.
Imagine que você chegue agora na sua casa e se depare com a cena estranha de sua mãe enchendo uma bexiga (balão de festa). Assim que você entra na sala ela está lá assoprando aquela coisa, e a bexiga está enchendo. O que você pensaria? Que sua mãe achou uma bexiga parcialmente cheia por aí e começou a encher, ou que ela começou a assoprar desde que a bexiga estava totalmente vazia? Obviamente que você escolheria a segunda opção. Com isso, é fácil pensar que se você chegasse um pouco antes, a bexiga estaria menos cheia, ou mesmo vazia.
Podemos extrapolar esse exemplo para o nosso universo observável. Quando olhamos e estudamos o movimento das galáxias e de outros corpos, vemos um universo que está se expandindo com determinada velocidade, então podemos retroceder essa expansão e pensar que o universo era no passado excepcionalmente pequeno, infinitamente quente e denso, nesse estágio do universo as nossas leis da física como conhecemos hoje parecem não ser válidas, podemos chamar esse microuniverso de "singularidade". Nós ainda não fazemos ideia de como essa "singularidade" surgiu ou mesmo começou a se expandir para formar o universo que temos hoje. Porém as equações que usamos para descrever a dinâmica do universo junto com nossas observações nos permitem levantar hipóteses sobre como o universo se desenvolveu em seus instante iniciais. Ou seja, não temos ainda uma física para o momento inicial, mas temos física para os bilionésimos de segundo que procederam esse instante.
Colocando isso em nomes e teorias, temos os estudos de Friedmann a partir das equações de campo da reatividade geral, que obtiveram soluções que mostravam um universo expansivo e colapsante. Poucos anos depois, Hubble conseguiu mostrar, a partir da observação do afastamento de galáxias distantes, que de fato o universo se expandia, como previsto teoricamente. Décadas mais tarde temos os trabalhos de Gamow que tratavam da formação de núcleos atômicos no inicio do universo, tendo como predição a existência de uma radiação térmica que permeia todo o espaço, chamada de radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Dezenove anos depois dois engenheiros físicos dos laboratórios Bell, nos EUA, tropeçaram na radiação cósmica de fundo e ganharam um Nobel por conta disso.
Temos então, duas evidências bem fortes de que o Big Bang pode ter realmente acontecido. Mas, nem tudo são maravilhas, da mesma forma que a teoria parecia solucionar alguns problemas, ela parecia não explicar outras coisas, como o "problema do horizonte e da planaridade" do universo, além de um problema que é chamado de "a origem da estrutura de larga escala". Para piorar um pouco as coisas, teorias mais modernas da física de partículas que tentam unificar as forças fundamentais do universo, se depararam com a predição de monopolos magnéticos massivos e estáveis, além de outros problemas de origem topológica que não cabem nesse texto.
Tá, mas o que esses problemas significam?
O primeiro problema, o do horizonte, é que radiação cósmica de fundo parece ser exatamente a mesma para dois pontos distantes do universo que nunca tiveram contato. Ou seja, como dois lugares diferentes, com uma distância enorme entre um e outro (maior até do que luz poderia ter percorrido) podem ter trocado calor e entrado em equilíbrio térmico?
O segundo problema é o da planaridade, ou seja, quando medimos a densidade de energia do universo ela mostra um universo aparentemente plano. Se essa densidade fosse um pouco maior, nosso universo já teria colapsado, se fosse pouco menor o universo teria se expandido de forma a não permitir a formação de estrelas, galáxias e etc. Assim, a densidade logo após o Big Bang teria que ser basicamente a mesma que temos hoje... uma baita coincidência, não acha?
O Terceiro problema, é chamado de "A origem da estrutura de larga escala", que é o fato de quando olhamos nos confins do universo, a matéria parece se apresentar em grandes grupos específicos, o que é estranho, pois se o universo é homogêneo e isotrópico, essas estruturas deveriam aparecer de forma mais homogênea. Assim uma expansão comum do universo não deveria formar esse padrão de distribuição de matéria que somos capazes de ver.
Por último, temos o problema com os monopolos magnéticos massivos, que surgem quando tentamos fazer uma teoria de grande unificação das forças fundamentais, conhecidas como GUT, uma vez que se acredita que as forças do universo estavam todas unificadas em
seu principio, e à medida que o universo foi se expandindo e esfriando,
essas forças foram se separando. O ponto problemático é que esses monopolos nunca foram encontrados na natureza, e a teoria padrão do Big Bang não diz se eles foram ou não produzidos. Além disso, a teoria também prevê problemas topológicos para o universo que são muito semelhantes àqueles que encontramos em cristais líquidos.
Esses problemas levantados, podem ser solucionados por uma hipótese bem interessante, que chamamos de inflação cósmica. Para tentar entendê-la, voltemos ao início do texto quando eu disse que o nosso universo era muito pequeno e infinitamente denso e quente. Ignorando o que quer que tenha feito o universo se expandir, acreditamos que logo após o Big Bang o universo tenha passado por uma transição de fase.... sim, semelhante aquela que você viu no Ensino Médio, lembra? Lá nas aulas, nós aprendíamos que quando a água virava gelo, havia liberação de energia, conhecida como calor latente. De forma semelhante o universo pode ter passado por uma transição de fase, à qual liberou grande quantidade de "energia latente" e causou uma expansão incrivelmente rápida. É possível ainda uma visão do ponto de vista das GUT's (forças unificadas), mas para isso precisaríamos falar sobre campos de Higgs e outras minuciosidades que deixariam esse texto enorme, então deixo isso para outra hora.
Provavelmente o que pode ter desengatilhado essa transição de fase que deu origem a inflação, é um campo escalar chamado de inflaton, que ainda não conhecemos direito. Por sua vez, perturbações nesse campo que foram amplificadas pela inflação poderiam ser medidas indiretamente a partir de variações na temperatura da radiação cósmica de fundo. E adivinhe!! Em 1992 a sonda COBE conseguiu encontrar e medir essa variação de temperatura, que batia com uma precisão muito boa com o valor teórico esperado.
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| esse é uma mapa da radiação cósmica de fundo feito pelo pela WMAP, que foi sucessora da COBE, aqui é possível as flutuações de temperatura em cores mais quentes. |
Após essa insana expansão, as forças se desunificam, a inflação pára e começa uma evolução aparentemente acelerada, mas sem grande espanto.
Basicamente para explicar como os problemas que a Teoria do Big Bang deixa de fora foram resolvidos pela hipótese da inflação, nós iríamos precisar de matemática, porém isso é inviável aqui, então irei me ater apenas de forma superficial a isso.
O problema do horizonte é resolvido de forma aparentemente simples. Pois devido a inflação, pontos que hoje estão muito distantes estavam muito próximos no passado, então eles puderam trocar informação.
O problema da planaridade pode ser pensado assim; o universo se expandiu tão rapidamente que qualquer curvatura que ele possa ter possuído no passado, foi totalmente perdida, dando lugar a um universo plano.
O problema com os monopolos magnéticos e a sua solução são bem interessantes e podem ser lidos na integra no livro Inflationary Universe, do Allan Guth. O ponto central dessa história é que no estudo feito por Preskill e em paralelo por Guth e Tye, foi possível mostrar que o número correto de monopolos magnético, bem como seu confinamento (semelhante ao de quarks para formar prótons e nêutrons) só poderiam acontecer em um universo muito quente e denso, além disso os monopolos apresentavam uma massa 10¹⁶ vezes maior que a do próton, portanto se o universo não tivesse se expandido muito rapidamente, ele teria colapsado devido a enorme massa dos monopolos somada as das outras partículas.
Já no caso da distribuição irregular de matéria que vemos no universo distante, a origem da estrutura de larga escala, obtém sua solução nas flutuações do inflaton que podem ser vistas como pequenas diferenças na densidade de matéria do universo. Dessa forma a expansão atuou como um amplificador dessas flutuações e espalhou-as pelo universo, assim, devido aos pontos de maior densidade, as galáxias puderam ser formadas de maneira irregular.
Agora vamos falar (finalmente!!!) sobre o que houve essa semana.
Acredito que se você veio até esse texto, deve ter se deparado com a notícia sobre dados do BICEP2 que corroboravam para inflação cósmica, então acho que vale começarmos por algumas dúvidas básicas:
" O que é o BICEP2?"
É um experimento bem legal feito no Polo Sul, que visa medir e estudar a polarização da radiação cósmica de fundo.
"Tá, mas o que é a polarização da radiação cósmica de fundo?"
A radiação cósmica de fundo é uma onda eletromagnética que tem sua origem no Big Bang e permeia todo o universo. Do que aprendemos na escola sabemos que ondas eletromagnéticas são formadas por um campo elétrico, um campo magnético perpendiculares entre si e também perpendicular a sua propagação. O que chamamos de polarização é a direção na qual o campo elétrico aponta.
![]() |
| onda eletromagnética; em vermelho (eixo y) temos o campo elétrico, em azul (eixo z) temos o campo magnético, e a propagação da onda se dá no eixo x. |
Então, o que estamos tentando medir é a direção que o campo elétrico da radiação cósmica de fundo aponta. Sendo a radiação cósmica de fundo o eco do Big Bang, ou se preferir, "a assinatura eletromagnética" dele.
O que o BICEP2 mede, é nada mais do que os fótons provenientes dessa radiação cósmica de fundo em todas as direções do espaço. Assim, se os fótons de uma região tem polarização aleatória, então a polarização daquela região é inexistente, ou muito pequena. Por sua vez, se os fótons de uma determinada região tem suas polarizações apontando em uma direção específica, dizemos que a radiação cósmica de fundo é polarizada naquela região. O que eu estou dizendo é o seguinte, se olhamos em uma região do espaço e vemos que os fótons daquela região tem polarização para direções bem diferentes, essa região é não polarizada, se os fótons dessa região tem polarizações para (mais ou menos) a mesma direção, dizemos que a região é polarizada, e é isso que o BICEP2 está medindo.
Com essas medidas nós podemos recolher informações de quando o universo tinha apenas 380 mil anos, que é quando ele se torna "transparente a radiação". Portanto nós podemos entender mais sobre o Big Bang e a Inflação cósmica.
"Mas como podemos entender mais sobre o Big Bang?"
É simples, se nós conseguimos prever e medir a existência de não-uniformidades na radiação 380 mil anos após o Big Bang, nós podemos retroceder no tempo e entender como essas uniformidades estavam no inicio do Big Bang. E antes que te surjam dúvidas, essas não-uniformidades tem origem devido Inflação que é causada pela presença de uma quantidade substancial de energia escura, que por sua vez está associada ao campo do inflaton. Mas sabemos que na mecânica quântica, nenhum campo ou objeto é sempre verdadeiramente constante ou estacionário, há sempre uma espécie de "oscilação" quântica que faz com que essas grandezas sejam um pouco incertas. O valor do campo inflaton sofre essa "oscilação" quântica. Como
consequência, a energia escura que está presente durante a inflação
não é exatamente constante em todo o espaço, o que
significa que há pequenas não-uniformidades na expansão do espaço, o
que por sua vez levam a pequenas não-uniformidades no Big Bang, que eventualmente, tornar-se visível como não-uniformidades na temperatura dos fótons na radiação cósmica de fundo.
As polarizações medidas no BICEP2 são chamadas de B-mode. De uma forma geral as polarizações podem ser grosseiramente entendidas em duas categorias, a primeira categoria são as polarizações que quando vistas a partir de um espelho, elas aparecem perfeitamente iguais, essas polarizações recebem o nome de E-mode, por sua vez, se olhar essa polarização por um espelho e ela parecer ao contrário, damos o nome de B-mode. (para saber mais veja aqui)
"Porque os B-mode e não os E-mode?"
Não-uniformidades nas energias dos fótons, quando o universo foi se tornando
transparente, também estão relacionados a presença de ondas
gravitacionais. Ondas gravitacionais podem dar origem tanto às polarizações E-mode quanto B-mode. Assim,
as B-mode em grandes escalas nos dizem sobre a não-uniformidade devido às ondas gravitacionais que possam ter existido em 380 mil anos após o Big Bang e uma descoberta de B-mode em grandes escalas seria uma medida poderosas (não definitiva) de ondas gravitacionais presentes no início do universo.
Agora vamos aos dados do BICEP2.
No gráfico acima o que nos interessa são o pontos pretos, que representam os B-modes. Segundo divulgado pelos pesquisadores do experimento BICEP2, eles obtiveram uma significância estatística de 3 sigmas na detecção de B-modes, que ainda não é suficiente para dizermos que se descobriu algo. Porém é importante saber que, se algo a vir a ser descoberto, NÃO é uma prova definitiva do Big Bang, NÃO é uma prova direta de ondas gravitacionais. Ainda, é necessário esperar obter mais dados e fazer estudos mais detalhados para se saber se essas polarizações B-modes são de fato o que esperamos ser, se elas possuem os comportamentos e propriedades previsto teoricamente, para que possam ser consideradas evidências consistentes.
Apesar de todo o estardalhaço da imprensa, ainda resta muita coisa a ser vista no âmbito científico, como o tamanho dessa polarização encontrada, que parece ser maior do que deveria, desfavorecendo as ondas gravitacionais e poderia indicar que algum aspecto importante está sendo deixado de fora de nossas teorias.
O que podemos fazer agora é esperar. Se os dados estiverem corretos, eles serão uma evidência indireta das ondas gravitacionais provindas da inflação, mas não será de forma alguma a primeira evidência - A primeira evidência foi obtida em 1993 (Leia aqui). Além disso, esses dados podem ser poderosas evidências da inflação cósmica e também um bom indicador de que nossas forças estavam unificadas no passado. Porém é importante lembrar que essa é uma primeira medição de um experimento, é possível que seja um problema com o experimento ou um erro de medição ainda, da mesma forma que ocorreu com o OPERA e seus neutrinos mais rápidos que a luz. Então sejam prudentes!
"Tá, resume então..."
De forma bem simplificada o que detectamos foram sinais da inflação cósmica que estão presentes ainda na radiação cósmica de fundo. A partir desses sinais é possível também obter evidências indiretas de ondas gravitacionais e conhecermos melhor alguns aspectos dos momentos logo após o Big Bang.
Alguns erros que foram cometidos na divulgação e na recepção desse assunto que gostaria de comentar:
1 - Prova de ondas gravitacionais
NÃO! de forma alguma, se os dados baterem exatamente com o esperado pela teoria teremos mais uma evidência indireta (porém forte) de ondas gravitacionais. Embora os primeiros dados divulgados mostrem problemas justamente nesse ponto... mas vamos esperar.
2 - Prova definitiva do Big Bang
Nem ferrando! É ainda mais absurdo que dizer que é prova de ondas gravitacionais. O que podemos afirmar é que seria uma forte evidência da inflação e com isso nossas teorias para estudar os momentos iniciais do universo podem estar dando resultados corretos, mas nada além disso!
3 - Einstein se dá bem novamente
Não necessariamente, apesar de ondas gravitacionais estarem diretamente ligadas a relatividade geral, essas medições seriam um triunfo para os teóricos da inflação, como o Já citado Guth, Preskill, Starobinsky, Linde, entre outros.
4 - É a primeira detecção de ondas gravitacionais.
Não, não é! Se caso vier a se confirmar que as polarizações B-mode são exatamente a que esperávamos, elas seriam a segunda evidência indireta de ondas gravitacionais, a primeira evidência veio na década de 90 a partir de estudos com pulsares binários.
5 - Como vocês acham uma coisa dessas e não acham um avião?
Sim, eu li essa pérola em vários lugares... Nós usamos um detector de polarização de radiação eletromagnética ultrassensível para realizar esse estudo, como diabos seria possível encontrar um avião com isso?
6 - É um estudo inútil!
Ahh, a mente descontinua e imediatista... se você pensa assim, talvez fosse legal dar uma lida nesse meu texto aqui.
7 - Expansão e inflação é a mesma coisa?
Não. Expansão do universo acontece hoje em dia de forma acelerada, porém nada tão surpreende. Já a inflação ocorreu em um intervalo de tempo extremamente pequeno (10⁻³² segundos) e o universo se expandiu a cerca 10⁵⁰ vezes. Muito provavelmente a origem da expansão atual tenha relação com a inflação, uma vez que a energia escura atua como pressão negativa fazendo o universo acelerar, porém na inflação houveram outros agentes que hoje não existem mais.
Como esse texto ficou monstruosamente grande e acredito que eu tenha conseguido dar um background para que você possa entender as notícias, caso queira ler mais sobre o assunto veja esses textos abaixo:
Fontes:
1 - Baumann. D - Lectures on Inflation
2 - Preskill - Cosmological Production of Superheavy Magnetic
Monopoles.
3 - Guth. A - Inflationary Universe
4 - K. Sato, Mon. Not. R. Astron. Soc. 195, 467 (1981); Phys. Lett. 99B, 66 (1981).
5 - A. H. Guth, Phys. Rev. D 23, 347 (1981)
6 - UFRGS - Inflação Cósmica
8 - Resonaances
9 - Série sobre Inflação - True Singularity (VEJA!)
9 - Série sobre Inflação - True Singularity (VEJA!)
domingo, 23 de março de 2014
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Thiago V. M. Guimarães
Mecânica Quântica - uma breve introdução
Finalmente comecei a cumprir a promessa e esse é nosso primeiro texto da série a respeito de mecânica quântica (MQ). Minha intenção aqui será unicamente dar uma visão desmistificada do que é a mecânica quântica no seu panorama geral, então nesse texto e nos textos seguintes espero abordar:
1 – Introdução (não histórica)
2 – Dualidade Onda-Partícula e Função de Onda.
3 – O caráter probabilístico da MQ e alguns formalismos
4 – Spin
5 – Curiosidades, paradoxos e outros
Nesses textos não pretendo fugir muito da matemática, ou seja, eu vou tentar ensinar vocês a como ler as equações e não a trabalhar com elas, pois existem muitos e muitos textos bons por aí que podem dar uma visão bem didática do assunto, mas nenhum dos que achei parece se preocupar em mostrar qual a matemática usada e como ela usada, ainda que seja uma das peças fundamentais da mecânica quântica.
1 – Introdução
Como tenho muito a escrever, vou deixar de lado aqui uma introdução histórica sobre a MQ, porém você poderá ler sobre ela (faça isso!) no links abaixo:
- O Surgimento da Física Quântica (Unicamp)
- A História da Teoria Quântica (USP)
- Uma Breve História da Mecânica Quântica
Na escala de tamanho do nosso dia-a-dia, a natureza parece prosseguir sem muitos mistérios. Com a mecânica de Newton conseguimos descrever muito bem o deslocamento de carros, a queda de pessoas, os socos e chutes em uma luta de MMA. Também conseguimos descrever fenômenos eletromagnéticos a partir do eletromagnetismo consagrado por Mawxell.
Porém nossa física clássica falha quando tentamos utilizá-la para descrever fenômenos que ocorrem distantes dos nossos olhos, na escala atômica e subatômica. Por exemplo, a existência e as propriedades dos átomos, ligações químicas e propagação de um elétron em um cristal só podem ser explicadas de forma correta no âmbito da mecânica quântica. Podemos estender nosso aprendizado da mesma para explicar também os corpos macroscópicos, uma vez que o comportamento de seus íons, átomos, elétrons, são regidos por leis da MQ.
De um ponto de vista histórico, no final do século XIX, as pessoas distinguiam entre duas entidades em
fenômenos físicos: matéria e radiação. Leis completamente diferentes
foram utilizadas para cada uma delas.
Por sua vez, a mecânica quântica veio contribuir para uma unificação notável dos conceitos fundamentais da física, tratando partículas de matéria e radiação em pé de igualdade.
Para prever o movimento de partículas de matéria, as leis da mecânica newtoniana eram utilizadas e seu sucesso foi muito impressionante. No que diz respeito à radiação, a teoria do eletromagnetismo, graças à introdução das equações de Maxwell, tinha produzido uma interpretação unificada de um conjunto de fenômenos que eram considerados como pertencentes a diferentes domínios: eletricidade, magnetismo e óptica. Em particular, a teoria eletromagnética da radiação havia sido espetacularmente confirmada experimentalmente pela descoberta das ondas hertzianas. Porém, algumas inconsistências surgiram. Havia dificuldades para interpretar o comportamento dos elétrons ao redor do núcleo, considerando que ambas as teorias (mecânica e eletromagnética) estavam corretas.
Em linhas gerais, segundo a teoria eletromagnética de Maxwell, uma partícula carregada, quando em movimento acelerado deve irradiar e perder energia. Assim, se os elétrons girassem ao redor do núcleo, estariam sujeitos a uma aceleração centrípeta, de forma que perderiam energia e cairiam em direção ao núcleo com um movimento espiral, emitindo radiação eletromagnética. Entretanto, um átomo com os elétrons parados ao redor do núcleo também não apresenta estabilidade, pois a força de atração entre o núcleo e os elétrons faria com que estes caíssem em direção ao núcleo, também emitindo radiação. Desta forma, era necessário um modelo que explicasse como os elétrons permaneciam em orbitais estáveis, sem que o átomo se “autodestruísse” com o tempo. Além disso a teoria clássica ainda apresentava alguns problemas em relação a absorção e emissão de radiação.
Na segunda década do século XX, já havia importantes resultados dos estudos da interação da radiação com a matéria, bem explicados pela força de Lorentz. Este conjunto de leis tinha trazido a física a um ponto que pode ser considerado satisfatório, tendo em vista os dados experimentais dessa época. Porém, a visão determinista clássica dominava o pensamento científico, sendo que a matéria era descrita em termos de partículas e átomos, enquanto a radiação era vista como uma onda. GRIBBIN descreve bem a situação quando afirma que:
“nessa época o melhor caminho para unificar a física parecia ser o estudo da interação entre a radiação e a matéria. Mas foi precisamente aí que a física clássica, até então sempre vitoriosa, falhou”.
Segundo uma lenda da física, no início do mesmo século, Lorde Kelvin disse que, no panorama da física, o céu estava obscurecido por duas nuvens negras. A primeira nuvem de Kelvin era o movimento da Terra ao longo do Éter, e a segunda nuvem se referia a necessidade da equipartição da energia para se corrigir discrepâncias entre previsões teóricas e dados experimentais na radiação térmica (nos focaremos nisso mais abaixo).
Essas nuvens anunciaram uma tempestade, a primeira deu origem a Teoria da Relatividade e a segunda a Mecânica Quântica.
A "revolução" quântica e a "revolução" relativística eram, em grande medida, independentes, uma vez que desafiaram a física clássica¹ em diferentes pontos. A teoria da relatividade (restrita) veio para explicar fenômenos que ocorriam a velocidades próximas a da luz, enquanto que a teoria quântica tentava explicar fenômenos que ocorriam em dimensões próximas ou inferiores a do átomo, que eram pontos distintos em que a teoria clássica falhava.
No entanto, é importante notar que a física clássica não morreu após a construção dessas duas novas mecânicas, pois em ambos os casos, ela pode ser vista como uma aproximação das novas teorias. Ou seja, para baixas velocidades, as equações que descrevem a relatividade nos dão as equações que usávamos na mecânica clássica, e basicamente o mesmo acontece com a mecânica quântica para casos macroscópicos específicos. Logo essa aproximação é válida para a maioria dos fenômenos que ocorrem na escala do nosso dia a dia, nos permitindo usar a mecânica newtoniana para prever corretamente o movimento de um corpo sólido, desde que seja não-relativístico (velocidades muito menores que a da luz) e seja macroscópico (dimensão muito maior do que as atômicas).
Ainda sim, a partir de um ponto de vista fundamental, a teoria quântica permanece indispensável. É a única teoria que nos permite compreender a própria existência de um corpo sólido e os valores dos parâmetros macroscópicos -como a densidade, calor específico e elasticidade, etc- associada a ele.
Nosso ponto de partida é entendermos o que começou dando errado na teoria clássica e o que foi necessário fazer para corrigir esse erro, ou seja, entendermos uma das duas nuvens negras de Kelvin.
Todos nós aprendemos nas incríveis e animadas aulas de termodinâmica do ensino médio, que corpos aquecidos emitem radiação térmica² em um espectro contínuo, ou seja, emitem luz que está quase totalmente na frequência do infravermelho. Por esse motivo só podemos vê-la com aparelhos especiais chamados de espectrômetros, sendo possível então determinar a temperatura de um corpo a partir da radiação térmica que ele emite.
De forma bem geral, o espectro de radiação térmica emitida por um corpo aquecido depende da composição dele, ou seja, um carvão incandescente emite um espectro de radiação térmica diferente de ferro fundido, logo para um estudo mais simplificado e eficiente, seria uma boa ideia idealizar um objeto que eliminasse problemas desnecessários.
Como você deve estar cansado de saber,
físicos gostam de coisas ideais, como vaca esférica num pasto plano
sem atrito e no vácuo, então give me some more; Para o estudo de radiações idealizamos um tipo de corpo (chamado de corpo negro) que absorve toda radiação
térmica que incide nele e emite radiação em todo espectro.
Dois corpos negros a mesma temperatura emitem o mesmo espectro de
radiação térmica
É possível pensar em um corpo negro como uma caixa com um orifício, toda a radiação do exterior que entra na caixa dificilmente consegue sair dela e então será absorvida em seu interior. Depois que toda radiação externa é absorvida pelo orifício, ele passa a emitir um espectro de radiação que chamamos de espectro de corpo negro. A energia total irradiada por esse corpo negro é chamada de Radiância e ela depende da temperatura do corpo. Pelos trabalhos de Stefan e Boltzmann, foi possível mostrar que a radiação emitida por um corpo negro é proporcional a temperatura desse corpo na quarta potência, ou seja:
$R_{T} = \sigma T^4$
Essa relação entre radiância e temperatura é conhecida como lei
de Stefan-Boltzmann, e $\sigma$ é a constante de Stefan-Bolztamann.
Em 1899, a partir de dados experimentais, Lummer e Pringshein, plotaram um gráfico da radiação de
corpo negro pela frequência da radiação emitida e obtiveram essas belas curvas:
Por esse gráfico vemos que quando a
temperatura aumenta a frequência da radiação se desloca
linearmente para valores mais altos, a isso chamamos de lei de deslocamento de Wien. Para a finalidade que queremos (uma
introdução a MQ), é mais interessante plotar um gráfico da
densidade de energia emitida pela frequência. A densidade de energia
(que chamaremos de $\rho$) se relaciona com a radiância da seguinte
forma: $R_{T}= \frac{c}{4} \rho_{T}$ (c é a velocidade da luz) - ou seja, a Radiância nada mais é do que densidade de energia multiplicada por uma constante. Ainda podemos rearranjar a
equação, fazer algumas considerações e substituições e obter a densidade de energia em função a frequência $\nu$, e ela damos o nome de
fórmula de Rayleigh-Jeans para a radiação emitida pelo corpo negro:
$\rho(\nu)=\frac{2 \pi \nu^2 kT}{c^3}$
Na fórmula acima, $K$ é a constante de Boltzmann.
Usando essa fórmula para plotar nosso
gráfico da densidade de energia pela frequência, obtemos:
![]() |
| Gráfico dos valores esperados teoricamente, apenas a temperatura de 1750 K é utilizada. (obs. ignore o "grau") |
![]() |
| Gráfico dos valores esperados experimentalmente, apenas a temperatura de 1750 K é utilizada. (obs. ignore o "grau") |
Puts, alguma coisa deu muito errada! O
teórico diz que a energia tende ao infinito para frequências muito
altas, enquanto o experimental mostra uma curva totalmente diferente,
em que a energia vai a zero para frequências altas. A esse problema
damos o nome de catástrofe do ultravioleta, pois a divergência entre os gráficos acontece na região do espectro ultravioleta, e é aqui que começa
nosso primeiro passo em direção a MQ.
Antes que você pense que pode ser
algum erro de matemática ou mesmo na forma que foi utilizada a
física clássica para descrever esse problema, lembre-se que já
repetimos os cálculos e já repensamos a teoria milhares e milhares
de vezes.
“Então se não fizeram "cagada" na matemática e nem erraram em considerações na física clássica, onde está o problema?”
“Então se não fizeram "cagada" na matemática e nem erraram em considerações na física clássica, onde está o problema?”
O problema era no cerne da teoria clássica, pois
considerávamos que a radiação era continuamente emitida e
absorvida, até que Planck propôs uma hipótese audaciosa (e desesperada) de considerar a
discretização dessa energia, ou seja, a energia seria emitida e absorvida
em pequenas quantidades que ele chamou de quanta. Matematicamente
falando, ele assumiu que quando a frequência da radiação fosse muito grande (tendesse ao infinito) a
energia média da radiação deveria tender a zero. Com essa consideração, Planck
conseguiria reescrever a fórmula para densidade de energia de modo que ela se
encaixasse nos dados experimentais, contudo a energia não mais
assumiria qualquer valor, mas sim valores específicos, por exemplo:
Se na teoria clássica, a energia
poderia assumir valores de 1/2,1,3/2,2,3/2,3,... agora com a discretização
da energia ela poderia assumir apenas valores específicos inteiros, como
1,2,3,4... e é justamente a isso que damos o nome de quantização. Quantizar algo é fazer ele assumir apenas valores específicos e não
mais contínuos.
Depois de várias manipulações
matemáticas, tomando como base a discretização da energia, Planck
conseguiu obter uma cara nova para fórmula de Rayleigh-Jeans:
$ \rho_{T}( \nu ) = \frac {8 \pi \nu^{2}}{c^{3}} \frac {h \nu}{ e^{ \frac {h \nu}{KT}} - 1} $
lembrando que $\pi = 3,14$. $c$ é a velocidade da luz, $K$ é a constante de Boltzmann novamente, $h$ é a constante de Planck e $e$ é o famoso exponencial, que vale 2,718.
Em um apanhado geral de tudo que
falamos aqui, começamos com uma teoria clássica da radiação, que
não descrevia de forma satisfatória os dados experimentais
relacionados a emissão e absorção de radiação por um corpo
negro. Os dados experimentais diziam que para grandes frequência a
densidade de energia da radiação tenderia a zero, enquanto a teoria
dizia que para essas frequências a energia deveria ir ao infinito.
Para que houvesse solução para o problema, Planck considerou a emissão e a absorção de radiação de forma discreta,
como se a radiação fosse emitida e absorvida em pequenos pacotes
que ele chamou de quanta. Com essa nova visão, Planck foi capaz de
modificar a fórmula de Rayleigh-Jeans para que ela descrevesse os
dados obtidos no experimento, assim a teoria estava novamente de
acordo com o observado na natureza, porém com uma modificação fundamental na
forma como enxergávamos o fenômeno. Foi assim que demos os
primeiros passos em direção a mecânica quântica. Existe ainda uma
forma de mostrarmos o fenômeno de quantização a partir do
eletromagnetismo, no estudo de radiações justamente, se eu
conseguir pensar em uma forma simples de demonstrar isso eu abordarei
no tópico 5.
Para encerrar o nosso primeiro texto vamos nos focar na quantização da energia que citei, mas não expliquei acima. Como eu disse anteriormente, a hipótese de Planck foi audaciosa e desesperada, pois violava o principio de equipartição da energia, que tem origem na distribuição de Boltzmann, na qual a energia média de um sistema térmico pode ser calculada utilizando uma ferramenta matemática chamada Calculo Integral, e então obtemos:
em que $h$ é a constantede Planck e a partir daí podemos considerar a energia como:
sendo $n=0,1,2,3,4...$ - ou seja, $n$ não é válido para valores não inteiro como 1/2,3/2,4/5,6/5,1/3... logo nossa energia é quantizada e então podemos recalcular a densidade de energia como:
Para encerrar o nosso primeiro texto vamos nos focar na quantização da energia que citei, mas não expliquei acima. Como eu disse anteriormente, a hipótese de Planck foi audaciosa e desesperada, pois violava o principio de equipartição da energia, que tem origem na distribuição de Boltzmann, na qual a energia média de um sistema térmico pode ser calculada utilizando uma ferramenta matemática chamada Calculo Integral, e então obtemos:
$ E= KT $
Levando isso em consideração Planck tomou,
como já era conhecido da teoria clássica, que para frequências muito próximas de zero,
a energia tenderia a $KT$. A
contribuição verdadeiramente relevante veio da consideração de
que a energia média para frequências muito grandes fosse zero, e
não $KT$ como o princípio de equipartição dizia. Então Planck
precisou modificar a forma com que a energia era calculada para que essa ultima
condição fosse satisfeita. Levando em conta sua nova
hipótese, Planck considerou que os
valores discretos da energia fossem distribuídos uniformemente, ou seja:
$E = 0, \Delta E, 2 \Delta E, 3 \Delta E$
ou ainda :
$E = n \Delta E$
sendo $\Delta E$ um intervalo constante entre dois
valores discretos de energia e $n = 0,1,2,3...$. O ponto importante aqui é que para frequências pequenas o $\Delta E$ é pequeno, e para frequências grandes o $\Delta E$ é grande. Com isso podemos relacionar a
variação da energia $\Delta E$ com a frequência $\nu$ da radiação
da seguinte forma:
$\Delta E = h \nu$
em que $h$ é a constantede Planck e a partir daí podemos considerar a energia como:
$E=nh\nu$
sendo $n=0,1,2,3,4...$ - ou seja, $n$ não é válido para valores não inteiro como 1/2,3/2,4/5,6/5,1/3... logo nossa energia é quantizada e então podemos recalcular a densidade de energia como:
$\rho_{T}( \nu ) = \frac {8 \pi \nu^{2}}{c^{3}} \frac {h \nu}{ e^{ \frac {h \nu}{KT}} - 1}$
Apesar de tudo que vimos até aqui parecer algo incrível, uma grande parcela da comunidade científica não aceitou com grande empolgação a hipótese de Planck (incluindo ele mesmo). Apenas 20 anos mais tarde, trabalhos mais sólidos começaram a surgir e a Mecânica Quântica que temos hoje começou a ganhar forma.
Espero que para vocês tenha ficado claro, qualquer dúvida é só deixar nos comentários. No próximo post irei abordar Dualidade Onda Partícula e Função de Onda.
Bibliografia:
- Cohen-Tannoudji - Quantum mechanics, vol 1. (introdução)
- Toledo Piza - Mecânica quântica. (detalhes adicionais)
- Lima C.R.A - Física Moderna (manuscrito). (corpo do texto)
- Feynman - Lectures on Physics. (mais detalhes adicionais)
1 - A teoria da relatividade, pode ser considerada ainda uma teoria clássica, embora tome o título de moderna por ser contemporânea. Nesse texto e no texto seguinte, a chamaremos de moderna.
2 - Radiação térmica é radiação eletromagnética, até o momento, quem descrevia bem essas radiações era apenas o eletromagnetismo.
domingo, 9 de março de 2014
Posted by
Thiago V. M. Guimarães
Hawking realmente disse que Buracos Negros não existem?
Recentemente saiu em vários veículos de informação que Hawking tinha dito que buracos negros não existem (e a nature ajudou bastante nisso). Até mesmo entre meus amigos físicos o assunto causo certo estardalhaço, pois queríamos entender que diabos estava acontecendo, será que Hawking pegou um vírus? Será que foi hackeado e está sendo manipulado para o mal? Ou será que a mídia fez cagada mais uma vez?
Eu não ia falar sobre esse assunto porque o Cesar do True Singularity provavelmente vai fazer isso (ele fez, veja aqui), e também porque eu evito falar de assuntos fora da minha área de pesquisa (para evitar falar besteira). Mas o professor Matt Stressler acabou de divulgar um texto que acho que vale a pena ser traduzido e comentado.
Vou ressaltar: o texto abaixo é uma tradução e adaptação, o texto original está linkado no final.
A mídia atingiu novos e absurdos níveis de obscurantismo com o anúncio de que Stephen Hawking tem uma nova teoria em que os buracos negros não existem.
Mas isso não é verdade. Não, ele não tem!
Primeiro, Hawking não tem uma nova teoria... pelo menos não que ele tenha apresentado. Você pode ver o paper aqui – São duas páginas (pdf) com um breve comentário que ele deu à especialistas em agosto de 2013 e escreveu - como um pequeno documento. Nesse paper você pode ver que não tem equações e tudo mais que se espera de uma pesquisa. Isso significa que o paper não se qualifica como uma teoria. "Teoria", em física, significa: um conjunto de equações que podem ser usadas para fazer previsões de processos físicos no mundo real ou imaginário. Por exemplo, quando falamos sobre a teoria da relatividade de Einstein, estamos falando de equações. Ao comparar esteticamente a nota recente de Hawking com o artigo de Einstein sobre a teoria da relatividade especial, publicado em 1905, ou mesmo comparar com o paper mais famoso de Hawking sobre os buracos negros, de 1975, você pode facilmente notar a diferença, sem compreender o conteúdo dos papers.
A palavra "teoria" não significa "especulações" ou "idéias", que é tudo o que está contido neste pequeno artigo do Hawking. Talvez seja isso que a teoria significa em uma mesa de bar, mas não é o que "teoria" significa em física.
Em segundo lugar, o que Hawking está se referindo neste artigo é o nível preciso de quão "negro"¹ é um buraco negro... em suma, ele discute se o termo "buraco negro" para os objetos que chamamos de buracos negros é realmente apropriado. Porém, a idéia de que os buracos negros não são completamente negros não é nova. Na verdade, foi o próprio Hawking que se tornou famoso em 1974-1975 por apontar que, devido a mecânica quântica, buracos negros típicos não podem ser precisamente negros - por isso não é verdade que nada escapa de um buraco negro. Os buracos negros devem lentamente irradiar partículas elementares, esse processo é chamado de radiação de Hawking.
A observação de Hawking levantou questões sobre como requisitos conflitantes da teoria quântica e da gravidade de Einstein seriam resolvidos, pois de um lado temos a teoria quântica exigindo que todas as informações que caíram no buraco negro não sejam destruídas e nem copiadas, do outro lado temos a gravidade de Einstein insistindo que não há como a informação que caiu em um buraco negro possa sair novamente, mesmo que o buraco negro se evapore e desapareça. O pressuposto da comunidade científica tem sido de que os cálculos que Hawking fez nos anos 70, que em grande parte estão corretos, deixa de fora um pequeno efeito sutil que resolve o quebra-cabeça. A pergunta é: qual é a natureza desse efeito sutil?
Ninguém, incluindo Hawking, tem dado uma resposta satisfatória para isso. E é por isso que nós continuamos ouvindo sobre buracos negros década após década, e mais recentemente, no contexto do "paradoxo firewall"². Em seu artigo recente, Hawking, como muitos de seus colegas, está propondo uma outra resposta possível, embora sem demonstrar matematicamente que a sua proposta está correta.
Mas Hawking realmente disse que "Não existem buracos negros"??
O assunto foi tirado do contexto! Aqui está o que Hawking realmente disse:
Primeiro, ele sugere que a borda de um buraco negro - chamado de "horizonte de eventos", que é um conceito muito sutil quando você entra em detalhes - não é tão acentuada, uma vez os efeitos quânticos são considerados. Muitas pessoas sugeriram uma outra versão dessa possibilidade, o que representaria uma correção pequena, mas fundamental para o que Hawking disse na década de 1970.
E então Hawking escreve ...
2 - para entender um pouco mais sobre Firewall, veja aqui: Scientific American
fonte:
agradeço ao Alonso pela revisão do texto.
Eu não ia falar sobre esse assunto porque o Cesar do True Singularity provavelmente vai fazer isso (ele fez, veja aqui), e também porque eu evito falar de assuntos fora da minha área de pesquisa (para evitar falar besteira). Mas o professor Matt Stressler acabou de divulgar um texto que acho que vale a pena ser traduzido e comentado.
Vou ressaltar: o texto abaixo é uma tradução e adaptação, o texto original está linkado no final.
A mídia atingiu novos e absurdos níveis de obscurantismo com o anúncio de que Stephen Hawking tem uma nova teoria em que os buracos negros não existem.
Mas isso não é verdade. Não, ele não tem!
Primeiro, Hawking não tem uma nova teoria... pelo menos não que ele tenha apresentado. Você pode ver o paper aqui – São duas páginas (pdf) com um breve comentário que ele deu à especialistas em agosto de 2013 e escreveu - como um pequeno documento. Nesse paper você pode ver que não tem equações e tudo mais que se espera de uma pesquisa. Isso significa que o paper não se qualifica como uma teoria. "Teoria", em física, significa: um conjunto de equações que podem ser usadas para fazer previsões de processos físicos no mundo real ou imaginário. Por exemplo, quando falamos sobre a teoria da relatividade de Einstein, estamos falando de equações. Ao comparar esteticamente a nota recente de Hawking com o artigo de Einstein sobre a teoria da relatividade especial, publicado em 1905, ou mesmo comparar com o paper mais famoso de Hawking sobre os buracos negros, de 1975, você pode facilmente notar a diferença, sem compreender o conteúdo dos papers.
A palavra "teoria" não significa "especulações" ou "idéias", que é tudo o que está contido neste pequeno artigo do Hawking. Talvez seja isso que a teoria significa em uma mesa de bar, mas não é o que "teoria" significa em física.
Em segundo lugar, o que Hawking está se referindo neste artigo é o nível preciso de quão "negro"¹ é um buraco negro... em suma, ele discute se o termo "buraco negro" para os objetos que chamamos de buracos negros é realmente apropriado. Porém, a idéia de que os buracos negros não são completamente negros não é nova. Na verdade, foi o próprio Hawking que se tornou famoso em 1974-1975 por apontar que, devido a mecânica quântica, buracos negros típicos não podem ser precisamente negros - por isso não é verdade que nada escapa de um buraco negro. Os buracos negros devem lentamente irradiar partículas elementares, esse processo é chamado de radiação de Hawking.
A observação de Hawking levantou questões sobre como requisitos conflitantes da teoria quântica e da gravidade de Einstein seriam resolvidos, pois de um lado temos a teoria quântica exigindo que todas as informações que caíram no buraco negro não sejam destruídas e nem copiadas, do outro lado temos a gravidade de Einstein insistindo que não há como a informação que caiu em um buraco negro possa sair novamente, mesmo que o buraco negro se evapore e desapareça. O pressuposto da comunidade científica tem sido de que os cálculos que Hawking fez nos anos 70, que em grande parte estão corretos, deixa de fora um pequeno efeito sutil que resolve o quebra-cabeça. A pergunta é: qual é a natureza desse efeito sutil?
Ninguém, incluindo Hawking, tem dado uma resposta satisfatória para isso. E é por isso que nós continuamos ouvindo sobre buracos negros década após década, e mais recentemente, no contexto do "paradoxo firewall"². Em seu artigo recente, Hawking, como muitos de seus colegas, está propondo uma outra resposta possível, embora sem demonstrar matematicamente que a sua proposta está correta.
Mas Hawking realmente disse que "Não existem buracos negros"??
O assunto foi tirado do contexto! Aqui está o que Hawking realmente disse:
Primeiro, ele sugere que a borda de um buraco negro - chamado de "horizonte de eventos", que é um conceito muito sutil quando você entra em detalhes - não é tão acentuada, uma vez os efeitos quânticos são considerados. Muitas pessoas sugeriram uma outra versão dessa possibilidade, o que representaria uma correção pequena, mas fundamental para o que Hawking disse na década de 1970.
E então Hawking escreve ...
"A ausência de horizontes de eventos significa que não existem buracos negros - No sentido de situações em que a luz não pode escapar para o infinito"
Observe a cláusula final, que é omitido nos relatos da mídia, e é absolutamente necessária para dar sentido a sua observação. O que ele quer dizer é que os buracos negros são ligeiramente bem menos negros do que Hawking disse em seu artigo de 1974 ... porque as coisas que caem no buraco negro, de certa forma, voltam para fora voltam para fora à medida que o buraco negro evapora. Digo "de certa forma", porque elas saem bem misturadas, por exemplo, se você cair em um buraco negro, não iria voltar para fora, mesmo que algumas das partículas elementares das quais você é feito possam, eventualmente, escapar do buraco negro.
E então ele diz
E então ele diz
"Há no entanto horizontes aparentes que persistem durante um período de tempo."
Tradução: por um tempo extremamente longo, o que chamamos de um buraco negro irá se comportar da maneira que sempre se pensou que ele se comportasse. Em particular, não há nenhuma mudança em qualquer astrofísica dos buracos negros que os astrônomos têm estudado nas últimas décadas. O único problema é o que acontece quando um buraco negro começa a evaporar de forma contundente, e quando você olha muito cuidadosamente para os detalhes da radiação de Hawking , que é algo bem difícil de se fazer.
"Isto sugere que os buracos negros devem ser redefinidos como estados ligados metaestáveis do campo gravitacional."
Em suma : Na proposta de Hawking, não é que os objetos que você e eu chamaria de "buracos negros" não existam! Eles ainda estão lá, só que com um novo nome, fazendo o que nós fomos ensinados que eles fazem, a não ser em alguns detalhes minuciosos. Não que estes detalhes pequenos não sejam importantes - eles são essenciais para resolver o quebra-cabeça da gravidade VS mecânica quântica. Mas uma pessoa comum assistindo ou explorando de perto um buraco negro não iria notar nenhuma diferença.
Observe também que tudo isso é uma proposta, feita em palavras, ele não demonstrou isso com matemática.
No geral, apesar de Hawking estar, como muitos de seus colegas, trabalhando duro para resolver os quebra-cabeças que parecem criar conflito entre a teoria quântica com a teoria da gravidade de Einstein, ele não está questionando se os buracos negros existem no sentido que eu e você os conhecemos. Ele está abordando a questão técnica de quão exatamente negro eles são, e como a informação contida nas coisas que caem nele conseguem sair. E uma vez que ele tem apenas palavras, mas não tem nenhuma matemática, ele não está convencendo os seus colegas físicos.
Enquanto isso, a mídia leva as essas quatro palavras "Não existem buracos negros" ao pé da letra e, mais uma vez, cria uma ficção que não tem quase nada a ver com a realidade da ciência. Bom trabalho, meios de comunicação, bom trabalho. Às vezes, vocês são como um buraco negro: a informação vem, e depois de ter sido completamente distorcida ao ponto de ficar irreconhecível, e devolvida novamente para fora através de um processo misterioso que não faz sentido para ninguém. Só que no seu caso, é muito claro que a informação é perdida, e a desinformação é criada.
Hey! Essa é uma nova teoria sobre buracos negros ! (Vou escrever um artigo de 2 páginas sobre isso nessa tarde ... )
Observe também que tudo isso é uma proposta, feita em palavras, ele não demonstrou isso com matemática.
No geral, apesar de Hawking estar, como muitos de seus colegas, trabalhando duro para resolver os quebra-cabeças que parecem criar conflito entre a teoria quântica com a teoria da gravidade de Einstein, ele não está questionando se os buracos negros existem no sentido que eu e você os conhecemos. Ele está abordando a questão técnica de quão exatamente negro eles são, e como a informação contida nas coisas que caem nele conseguem sair. E uma vez que ele tem apenas palavras, mas não tem nenhuma matemática, ele não está convencendo os seus colegas físicos.
Enquanto isso, a mídia leva as essas quatro palavras "Não existem buracos negros" ao pé da letra e, mais uma vez, cria uma ficção que não tem quase nada a ver com a realidade da ciência. Bom trabalho, meios de comunicação, bom trabalho. Às vezes, vocês são como um buraco negro: a informação vem, e depois de ter sido completamente distorcida ao ponto de ficar irreconhecível, e devolvida novamente para fora através de um processo misterioso que não faz sentido para ninguém. Só que no seu caso, é muito claro que a informação é perdida, e a desinformação é criada.
Hey! Essa é uma nova teoria sobre buracos negros ! (Vou escrever um artigo de 2 páginas sobre isso nessa tarde ... )
1 - Quando falamos em quão negro é um buraco negro não estamos falando sobre cor, mas sim o quanto de informação é possível recuperar, por exemplo, um buraco negro totalmente negro não deixaria escapar nenhuma informação. A medida que a classificação vai ficando menos negro, é possível obter de volta quantidades de informação que caíram no buraco negro.
2 - para entender um pouco mais sobre Firewall, veja aqui: Scientific American
fonte:
agradeço ao Alonso pela revisão do texto.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Posted by
Thiago V. M. Guimarães
Palavras na boca de Michio Kaku: ele realmente provou a existência de Deus?
Há um tempão atrás,
(uns três anos) eu vi uma matéria em um site gospel que dizia que o
Michio Kaku tinha criado uma teoria que provava a existência de Deus.
Como na época eram apenas casos isolados, eu não me importei muito
com o assunto. Porém agora essa notícia ganhou força novamente e
apenas dois sites (Universo Racionalista e E-Farsas) se manifestaram,
então vou aproveitar meu sábado de folga não apenas para dizer que
o Michio Kaku provavelmente não disse isso, mas também para dizer que uma
afirmação dessas não faria sentido. Antes quero destacar que:
1 – Eu NÃO vou dizer
que Deus não existe.
Primeiro vamos começar
pela notícia, ela foi postada em vários blogs, nenhum deles cita
fonte, quando cita alguma fonte é de um outro blog que tem menos
credibilidade do que o meu. O texto mais antigo que achei remete a
2009, e diz o seguinte:
(1) O físico teórico Michio Kaku, diz ter criado uma teoria que pode apontar a existência de Deus. Comentário criou alvoroço no meio científico, pois Michio Kaku é considerado um dos cientistas mais importantes da atualidade, criador da Teoria das Cordas, é extremamente respeitado.
(2) Para chegar às suas conclusões, o físico fez uso de um "semi-raio primitivo de táquions" (Táquions são partículas teóricas, capazes de "desgrudar" do Universo a matéria ou vácuo que entrar em contato com ela, assim, deixando qualquer coisa livre das influências do universo à sua volta), tecnologia criada recentemente em 2005. Embora a tecnologia para chegar às verdadeiras partículas de táquions ainda esteja muito longe de ser alcançada, o semi-raio tem algumas poucas propriedades dessas partículas teóricas, que são capazes de criar o efeito dos verdadeiros táquions, em escala subatômica.
(3) Para Michio a existência de "Deus" se deve ao fato de nós vivermos em uma "Matrix": - Cheguei à conclusão que estamos em um mundo feito por regras criadas por uma inteligência, não muito diferente do seu jogo preferido de computador, claro, impensavelmente mais complexa. Analisando o comportamento da matéria em escala subatômica, a parte afetada pelo semi-raio primitivo de táquions, um minúsculo ponto do espaço, pela primeira vez na história, totalmente livre de qualquer influência do universo, matéria, força ou lei, percebi de maneira inédita o caos absoluto. Acredite, tudo que nós chamávamos de casualidade até hoje, não fará mais sentido. Para mim está claro que estamos em um plano regido por regras criadas, e não moldadas pelo acaso universal. - Comentou o cientista.
(4) A teoria completa deverá ser apresentada em 9 de janeiro de 2010, em um congresso na Suíça.
ScientificAmerican
Vamos parágrafo por
parágrafo.
1 – O Michio Kaku
nunca apresentou à comunidade científica nenhuma teoria relacionada
a Deus, isso porque nós sabemos que Deus (independente da existência
dele ou não) é algo abstrato, alheio a nossa ciência. Deus não
pode ser testado, não pode ser mensurado, então não há como
estudarmos cientificamente a existência de Deus. Mas como eu já
falei anteriormente, a ciência não se divulga no boca a boca, e sim
em artigos científicos que passam por uma séria revisão por pares,
depois outros cientistas buscam a confirmação ou refutação do estudo apresentado. Esses artigos, que são a parte fundamental de
uma pesquisa científica, ficam disponíveis em uma plataforma restrita
chamada Web of Knowledge, por exemplo. Eu fui lá procurar alguma publicação
dele referente a esse assunto e adivinhem... não encontrei NADA! Porém
tem algumas publicações recentes de algum Kaku M. que é na área de plasma e fotônica, duvido muito que seja o mesmo. Abaixo você pode ver um pdf com todos os artigos referidos à pesquisadores com sobrenome Kaku, de 1988 até agora:
Um segundo ponto dentro desse primeiro paragrafo é que hoje em dia Kaku não é um cientista importante, mas talvez um divulgador de destaque. Faz bastante tempo que ele não publica nada relevante e ele não foi criador da Teoria de Cordas. Na década de 70 e 80 ele produziu pesquisas muito boas na área de Teoria de Campo de Corda, que hoje está jogada as traças, mas isso não faz dele nenhuma autoridade incontestável em assunto nenhum!
Um segundo ponto dentro desse primeiro paragrafo é que hoje em dia Kaku não é um cientista importante, mas talvez um divulgador de destaque. Faz bastante tempo que ele não publica nada relevante e ele não foi criador da Teoria de Cordas. Na década de 70 e 80 ele produziu pesquisas muito boas na área de Teoria de Campo de Corda, que hoje está jogada as traças, mas isso não faz dele nenhuma autoridade incontestável em assunto nenhum!
2 – Aqui a coisa fica
complicada, o texto tenta usar um suposto jargão técnico e um, mais
suposto ainda, embasamento teórico para corroborar com as afirmações que o
Kaku teria feito. O problema é que “semi-raio primitivo de
táquions” não existe, na verdade é algo que nem faz sentido. Até
mesmo a definição de táquion é sem sentido. Tentei procurar por
essa afirmação do Michio Kaku, mas não encontrei nada, a única
coisa que achei foi uma versão em inglês (porém postada em um site
um português) da notícia, o suposto título em inglês seria
“Noted scientist Michio Kaku says that God exists” e teria sido
postada na Gospel Prime, mas não achei absolutamente nada sobre
isso.
video em que Michio Kaku expõe sua visão pessoal de Deus.
3 – Fui procurar
sobre as afirmações do Kaku relacionadas a vivermos em uma Matrix,
o que eu achei foi essa entrevista na Scientific American, em que ele
fala sobre uma série de assuntos especulativos. Apesar de não falar
nada sobre Deus, Kaku já expressou outras vezes sua opinião pessoal
do assunto, na qual ele diz ter uma visão de que Deus está
relacionado à matemática que rege o universo. Aqui eles voltam a
falar de um experimento, que da forma que foi descrita nunca foi
feita. O que eu pessoalmente acho que aconteceu é uma enorme confusão
de idéias, que pode ter sido proposital ou não, pois parte dessas
afirmações caem nesse assunto aqui: Estamos vivendo dentro um computador? Porém isso não
tem relação com a existência ou não de Deus e mais, a entrevista é de 2003, como ele poderia ter falado de algum experimento realizado em 2005?
4 – Nenhuma teoria
completa (nem parcial) foi apresentada até hoje (Dezembro de 2013)
sobre nada relacionado a isso e em uma procura na Scientific American
não se encontra absolutamente nada sobre o assunto.
A conclusão óbvia é
que a notícia é falsa, muito provavelmente o Kaku nunca deve ter
falado nada disso e as justificativas dadas para a sua afirmação
não fazem sentido fisicamente. Minha visão é que tudo não passa
de confusão e um pouco de falta de caráter. Alguém que não entendeu nada do
que leu deixou ser levado por suas crenças ao tentar interpretar as
palavras do Michio Kaku, então resolveu escrever um texto alarmista
sobre o assunto e viralizou.
Nós físicos, de forma
geral, não temos nenhum interesse em provar a existência ou não de
Deus, a crença em um ser superior é algo subjetivo demais para que
possamos sistematizar como fazemos em nossas pesquisas. Mesmo assim
existem pessoas que fazem mal uso da ciência para tentar provar suas
crenças pessoais, distorcendo o conhecimento científico para
embasar ou refutar a existência de um Deus. Nos
departamentos de ciência de todo mundo temos pesquisadores das mais
diversas religiões, além de ateus e agnóstico sendo que a grande maioria deles faz seus trabalhos de forma séria, sabendo os limites de investigação da ciência.
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Galera, essa semana será a última semana de correria para mim, depois dela vou começar uma série de posts sobre mecânica quântica e no ano que vem pretendo começar um sobre relatividade. Até mais!
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Galera, essa semana será a última semana de correria para mim, depois dela vou começar uma série de posts sobre mecânica quântica e no ano que vem pretendo começar um sobre relatividade. Até mais!
sábado, 7 de dezembro de 2013
Posted by
Thiago V. M. Guimarães













